Sobre homens de direita e esquerda

Você se diz avançado. Você me dá as mãos e se chama de aliado. Você discute o 18 de brumário e fala poeticamente sobre antifascismo e solidariedade. Você fala sobre os seus privilégios: fala sobre ser homem, sobre ser branco, sobre a sua classe. Fala,inclusive, sobre o privilégio de poder performar um monólogo encarrilhado durante 3 horas para mim numa mesa de bar enquanto eu, calada, finjo novidade com as informações que você me traz nessa masturbação intelectual interminável. Você é cheio de privilégios. Ah, eu sei que é e você também sabe. Você posta todo dia sobre eles no facebook, você fez até um teste no buzzfeed para atestá-los. Parabéns por essa constatação, uau, você é tão radical! É uma salva de palmas que você espera de mim? Ou esse é só mais um atalho para o meio das minhas pernas? Se eu não der para você, você dirá para os seus amigos que eu sou uma posmod (quando todos sabem o que você REALMENTE quer dizer) ingrata que te pôs na friendzone? Ou você vai ignorar o meu não até o dia em que eu acordarei com uma piroca não solicitada no meu chat junto da mensagem “última chance”?

Independente do caminho que você decida tomar no que diz respeito à minha pessoa, eu queria te dizer que foda-se. Foda-se o seu privilégio, a sua organização, o seu companheirismo e as suas boas intenções que sim, eu acredito que existam apesar de todas as evidências. Você me jogou na lama tantas vezes que eu já me cansei de sair dela, de me levantar e me apresentar limpinha para você me arremessar de novo no mesmo poço. De agora em diante eu não saio mais daqui e vou te puxar pelas pernas para dentro do mesmo buraco. Talvez daqui, do fundo, você finalmente consiga me ouvir. Cala a boca. Vamos falar sobre alguma coisa que presta que dessa boca de macho só sai lixo.

Vamos falar sobre empatia. Essa que você diz tanto sentir quando eu falo das minhas feridas.

Sabe o qual é a semelhança entre um homem da esquerda e um da direita? É que para ambos mulher só presta pra produzir filho e ereção. E não adianta fazer essa carinha de “nem todo homem” porque eu já vi tantos corpos e mentes femininas sendo destruídos nesse moedor de carne chamado vida que cheguei à conclusão que o que faz um homem bom ou ruim é mesmo a oportunidade. Eu vi mulheres sendo surradas por direções partidárias e eu vi essas mesmas mulheres deixando seus abusadores só para depois assisti-los sendo acolhidos pelos bons homens de suas organizações de esquerda. Nós somos espancadas e depois traídas pelos bons homens que como você se dizem aliados… Que se dizem companheiros. E isso dói. Às vezes dói mais que a própria surra. Eu não acho que você entenda o que é isso; Você obviamente nem tenta, mas ainda que tentasse você simplesmente não sabe como é ver alguém que te espancou ou te estuprou sendo recebido de braços abertos enquanto você é empurrada para fora. Ver que todo mundo esqueceu uma coisa que vai ficar marcada em você pelo resto da sua vida.
Você provavelmente está dizendo agora “bem, mas eu acho tudo isso errado” ou “mas eu nunca fiz nada disso” e eu queria acreditar em você, eu juro que sim. Talvez pela minha socialização feminina, eu ainda esteja à procura da porra de um príncipe. Um príncipe que deite a cabeça no travesseiro e não consiga dormir pensando no fato de que metade da população vive sob a sombra do estupro, do espancamento, do feminicídio e que ainda assim VIVE. E como vive… produzindo ereções e bebês, funções estas que caso deixem de fazer sentido na sua cabeça, me fazem ter medo do extermínio em massa.

Hoje um li um post escrito por você. E por você, entenda qualquer homem, em qualquer lugar. Você não é diferente e nem especial. Nele você se perguntava o porquê de políticos venderem o Brasil por dinheiro se podem vendê-lo por quengas. Para você, meu corpo é moeda de troca e a minha boceta é um receptáculo de porra de político corrupto. Você é de esquerda. Ontem, eu vi fotos de você dizendo para uma moça como eu, no mínimo 20 anos mais nova que você, que o meu verdadeiro valor está na minha bunda e não na minha profissão e por isso eu devia mandar um “nude” enquanto você vota pelo arquivamento do processo contra o presidente da república. Aqui você é um deputado da direita.
Quantas vezes você precisa nos humilhar dessa forma? O que nós precisamos dizer para te convencer que as nossas feridas são reais? Quantas vezes nós precisamos contar as nossas histórias — histórias que nos envergonham, que fazem com que nós nos sintamos hipócritas? Até quando você vai perguntar o porquê nós ficamos, o porquê nós aceitamos, o porquê nós não denunciamos? Para depois de todo nosso esforço apertar a mesma mão que me dá tapa na cara. Pra ser essa própria mão que me bate, que me estupra, que paga por sexo, que me humilha nas redes sociais… Há anos eu tenho assistido vocês protestando, escrevendo artigos, tendo suas discussões profundíssimas a respeito da conjuntura nacional, medindo pinto sempre que uma de nós está presente. E o que nós fazemos? Nós escutamos. Nós estamos ao lado de vocês, seja na cama ou no front.

“Mostra a tua bunda afinal não são suas profissões que te destacam como mulher”

Vocês podem nos escutar também? Só uma vez. Sem dizer nada, sem dar uma de bom samaritano.

Nós fomos criadas para lê-los e lemos cada suspiro, cada microexpressão que vocês esboçam. E vocês não estão sendo sinceros quando dizem que sentem muito. Porque vocês não acreditam que o que sai das nossas bocas seja sério. E porque vocês querem mais os seus companheiros abusadores, a sua pornografia, a sua masculinidade e uma horda de mulheres hipnotizadas dispostas a escutar os seus sofrimentos infantis e reconfortá-los do que querem o nosso bem estar. Eu quero que vocês sintam isso que nós sentimos e como eu não defendo que se criem cotas para espancar e estuprar homens equivalentemente ao que vocês fazem com mulheres (até que se encontre a “igualdade”), vou fazer com que vocês se sintam assim com as coisas que vocês são capazes de ouvir. Faça silêncio. Escuta com atenção que talvez as minhas palavras te alcancem.

É isso o que eu quero de você que se diz avançado: quero que você nos escute. Quando você começar a nos escutar, mais do que com as suas orelhas, mas com o seu cérebro que processa coisa infinitamente mais complexas, aí sim nós falaremos de novo a respeito de empatia. Até lá, essa palavra não significará nada, não haverá trégua no terror das nossas vidas e continuaremos sendo sempre a outra metade que vocês esqueceram de contar.

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Daniela de Abreu

Doula, feminista e amante de trash horror.