Terrorismo Islâmico é Terrorismo de Direita

 

Nós nunca fomos atacados por muçulmanos liberais*, mas cristãos conservadores tem derramado muito sangue

Joshua Holland

* Liberal no sentido norte-americano, ou seja, centro-esquerda alinhado ao Partido Democrata

Logo após o derramamento de sangue em Orlando, alguns conservadores estão fazendo a vil afirmação de que a esquerda “escolheu o Islã ao invés dos gays”, como o site Breitbart colocou, e, portanto, ela é de alguma forma responsável pela perda de 49 vidas no Sábado a noite.

Ku Klux Klan, EUA

Esta retórica é porque, nas horas que se seguiram ao tiroteio ou ataque terrorista, muitos de nós esperamos secretamente que o autor se revelasse um extremista da Direita Cristã, e não um muçulmano como Omar Mateen. Não faz diferença para as vítimas ou seus parentes, mas temíamos o inevitável crescimento do fanatismo contra todos os muçulmanos que se seguiria caso o atirador também fosse um, pois entendemos que a violência promovida por extremistas cristãos, judeus ou hindus (ou qualquer outro grupo) contra essas comunidades não é tratada igualmente. Ninguém sente a necessidade de perguntar se o pregador local condena a violência em nome do cristianismo. Isso é presumido.

Mas devemos parar de sentir essa sensação de pavor quando o terrorista da notícia tem nome diferente e reconhecer que terrorismo islâmico é terrorismo de direita. Se considerarmos que estamos sob ataque, não é por parte de muçulmanos moderados ou liberais. Não falamos em “Islã liberal” porque os muçulmanos liberais não sonham em dominar outros grupos. (Nos Estados Unidos, os muçulmanos são mais propensos a se identificar como liberais do que a população como um todo.)

Os detalhes diferem, mas a característica definidora de todos os religiosos de direita é um desprezo permanente pelo pluralismo religioso. Eles negam a legitimidade de outras religiões. Todas as tradições religiosas conservadoras são hostis em relação aos gays e lésbicas e àqueles que rejeitam os papéis de gênero tradicionais. A maioria abraça o nacionalismo religioso e rejeita o multiculturalismo. Há algumas exceções, mas a maioria se opõe ao aborto. Todos eles querem voltar a uma visão idealizada de um passado mais simples. Quando você retira as cores diferentes, são todos de direita.

Hindutva, Índia

Felizmente, a grande maioria dos religiosos conservadores não são violentos. Isso é tão verdadeiro para os islâmicos como para qualquer outro grupo. Escrevendo no The Guardian, o estudioso e autor paquistanês Ali Eteraz argumenta, “É uma grande falácia achar que os jihadistas e os islâmicos são a mesma coisa”. Mas, escreve ele, a Direita Islâmica é um “movimento ideológico” que é fundamentado em uma “revolução individualista” inerentemente conservadora dentro do mundo muçulmano.

Com sua supremacia religiosa – que os convence de que a vida de todo mundo seria melhor se adotassem os mesmos valores que eles – esses muçulmanos deixam-se vulneráveis para serem atingidos por propagandistas experientes. Assim, truques odiosos como invocar os perigos da homossexualidade, atacar a liberdade sexual, demonizar as minorias religiosas e culturas estrangeiras, bem como censurar qualquer coisa que cheire a pensamento crítico, são usados para manter a a base ideológica viva.’

Isso soa como as bases de Ted Cruz.

Estudiosos acadêmicos demonstram que terrorismo religioso não é realmente sobre religião. Grupos como Al Qaeda e ISIS têm metas decididamente seculares – poder político, controle de território ou recursos – e usam a religião como uma poderosa ferramenta de recrutamento. Eles dão aos seus seguidores um senso de identidade compartilhada, definem seus inimigos, e os estimulam a cometer atos de violência monstruosos. É o mesmo ocorre com grupos terroristas cristãos como o ‘Exército de Resistência do Senhor’ na África Central e a ‘Frente de Libertação Nacional de Tripura’, Índia. É o mesmo com a violência de colonos extremistas judeus nos Territórios Ocupados (da Palestina). Seus líderes podem alegar falar por seu Deus, mas seus objetivos são sempre terrenos, não teológicos.

Nacionalistas israelenses anti-miscigenação

E supremacia religiosa não se limita a ações insanas de violência. Entre os conservadores cristãos há uma crença comum de que o Islã, que se caminha para tornar-se a religião mais popular do mundo até 2070, não é uma religião e, portanto, não deve ser protegido pela Primeira Emenda. Roger Jimenez, um pregador batista em Sacramento, não matou ninguém, mas no domingo, uma filial local da CBS informou que ele disse à sua congregação, “Você está triste que 50 pedófilos foram mortos hoje? Eu acho ótimo! Acho que isso ajuda a sociedade. Acho que Orlando, na Flórida, está um pouco mais segura hoje à noite. “

Esse sistema de crenças contrasta claramente com os religiosos liberais de todos os tipos. Eles participam de conferências inter-religiosas. Eles estão constantemente chamando para o diálogo e compreensão entre as diferentes crenças e enfatizando os valores universais que todas as principais religiões do mundo mantêm em comum. No extremo, os religiosos de esquerda podem abandonar tudo e se unirem a cultos hippies ou serem presos tentando livrar o mundo de armas nucleares, mas eles não explodem as pessoas nem continuam saem atirando.

Um “lobo solitário” pode estar sofrendo de doença mental, como Mateen talvez tenha, mas é a mesma ideologia religiosa

Ato da extrema-direita alemã

conservadora que está motivando-o. Sabemos que Omar Mateen, pelo menos, flertou com ISIS. O FBI o tinha interrogado várias vezes. Ele teria olhado Disney World como um alvo potencial. Mas também sabemos que um colega de trabalho o descreveu como um racista beligerante, e seu pai disse à NBC que ele ficou enfurecido quando viu dois homens se beijando. Há também relatos de que ele vivia indo na Boate Pulse, e frequentava outras casas noturnas gay antes do ataque. Até agora, não há nenhuma evidência de que ele foi realmente guiado por qualquer organização terrorista organizada.

Eric Rudolph deve ter ficado igualmente furioso quando bombardeou uma boate lésbica em Atlanta.Yishai Schlissel, o judeu ultra-ortodoxo que esfaqueou três pessoas no desfile do Orgulho Gay de Jerusalém em 2005, foi preso e, em seguida, esfaqueou mais seis no desfile de 2013 – um fatalmente – provavelmente sentiu a mesma repulsa. Em áreas controladas pelo ISIS, a homossexualidade é punível com a morte. Os extremistas cristãos de direita dos Estados Unidos desempenharam um papel fundamental na promoção de uma lei ugandense que teria imposto a pena de morte aos gays e lésbicas (depois de protestos internacionais, a pena de morte foi substituída por prisão perpétua na versão final do projeto de lei ).

Partido nacionalista de extrema-direita turco

Ao rejeitar o fanatismo anti-muçulmano, não “escolhemos o Islã”em detrimento de ninguém. A realidade é que rejeitamos a supremacia religiosa, a hostilidade para com as pessoas LGBT e a insistência nas normas de gênero tradicionais que são abraçadas por praticamente todos os povos conservadores da fé, estejam eles expressando com violência ou discriminação ou leis estranhas que governam até onde as pessoas fazem xixi.

Então, se é Robert Dear atirando em uma clínica da Planned Parenthood ou Baruch Goldstein massacrando muçulmanos enquanto oravam ou um cara chamado Omar indo causar uma série de mortes em uma boate gay em Orlando, é tudo religiosamente inspirado no terrorismo de direita. Vamos parar de nos preocupar com qual texto sagrado um assassino escolhe para justificar seus crimes e vamos chamá-lo pelo que realmente é.

Traduzido de: thenation.com/article/islamic-terrorism-is-right-wing-terrorism/

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