Turquia ameça invadir territórios curdos na Síria

Recentes declarações do presidente turco Recep Tayyip Erdogan e de líderes de grupos rebeldes jihadistas instalados no norte sírio, como o líder do Faylaq al Sham, Muaz Ebu Omar, dão conta de que um ataque ao cantão de Efrin e à cidade de Manbij pode estar bem próximo de acontecer.

É hora de destruir definitivamente o projeto da organização separatista de criação do corredor terrorista na Síria“, ameaçou Erdogan em recente declaração. Muaz Ebu Omar, líder da frente Faylaq al Sham, ou Legião do Sham, dissidência sunita-salafista do Exército Livre da Síria e da Irmandade Muçulmana que reune em torno de 4 mil combatentes de 19 grupos diferentes, afirmou queA batalha de Afrin é iminente, começará a qualquer momento. 20 000 forças do Escudo de Eufrates e o exército turco estão prontos e alerta. A operação será coberta por TuAF [Força Aérea Turca]”.

O alegado “corredor terrorista” que se refere Erdogan é o território ao norte da Síria controlado por curdos, árabes, assírios, muçulmanos, cristãos, dentre outras etnias e religiões, que se estabeleceu após esses povos, unidos nas Forças Democráticas da Síria (SDF), eliminarem heroicamente o ISIS desde Kobani até a fronteira com o Iraque ao sudeste do país, passando por Raqqa, ex-autoproclamada capital do califado do Estado Islâmico e libertada fim do ano passado pelas SDF, e pelo leste de Deir Ez-Zor.

Esse corredor a que se refere o presidente turco faz fronteira com a Turquia é conhecido por Rojava, nome curdo da região onde habitam no norte sírio. Os curdos teriam o controle completo da região de Rojava não fosse a operação turca lançada em 2016 denominada “Escudo de Eufrates”, em que a Turquia e rebeldes pró-Turquia arremeteram uma ofensiva militar a partir da cidade de Jarabulus e tomaram o controle da região das mãos do ISIS, desde o Rio Eufrates até o cantão de Efrin, formando um verdadeiro “escudo” que impede a conexão de Kobani a este cantão.

Mapa da guerra da Síria detalhado com foco na questão Curda
Mapa da guerra da Síria detalhado com foco na questão Curda

O que desde sempre foi público que seria uma operação afim de barrar a conexão de Rojava, essa operação também teve um alegado objetivo de ser “contra o Estado Islâmico”; mas vários relatos, fotos, vídeos, como consta nesse documentário realizado por Joey L., fotógrafo autônomo estadunidense que acompanha os curdos com registros em foto e vídeo, denunciam que a Turquia sempre se mostrou disposta à livre circulação de militantes do ISIS e outros jihadistas em seu território e na fronteira com o país sírio. Ademais, inclusive, existem evidências de que o país turco tenha dado suporte financeiro ao ISIS – comprando petróleo do Estado Islâmico [1] [2] [3], por exemplo.

Fato é que Erdogan encarna a mais detestável obstinação turca de esmagar o povo curdo, de liquidar suas iniciativas, de eliminar sua justa resistência, de dissolver seu sonho de liberdade, movido por um sentimento anticurdo que se traduz em perseguição, prisão, tortura e morte, além de dar suporte a grupos verdadeiramente terroristas, numa clara demonstração do mais autêntico terrorismo de Estado, tal como a violência sistemática que Israel impõe sobre os palestinos – violência que, a propósito, Erdogan sempre repudiou com assaz veemência.

Por essa política de Estado anticurda – que também sempre existiu nos estados sírio, iraquiano e iraniano, com distintas formas e intensidades -, os curdos construíram organizações políticas, sociais e até militares de resistência, amparo, suporte e de libertação de seu povo das mãos desses estados autoritários e xenofóbicos. Algumas dessas organizações são consideradas terroristas pela Turquia, tal qual o PKK – Partido dos Trabalhadores do Curdistão, que opera clandestinamente na Turquia, e o PYD – Partido da União Democrática, que opera na Síria e controla as YPG e YPJ, Unidades de Proteção do Povo e Unidades de Proteção Feminina, consequentemente; por outro lado, são exatamente essas organizações consideradas terroristas pela Turquia que deram e dão suporte e garantiram mínima dignidade aos povos e minorias (não só curdos) que se encontraram absolutamente largados à própria sorte quando o ISIS conseguiu dominar suas cidades, províncias, vilarejos, comunidades. Não fosse a ação contundente de forças alinhadas com o PKK e o PYD, os yazidi, por exemplo, minoria curda que vive nas montanhas de Sinjar, no curdistão iraquiano, teriam sido completamente exterminados pelo Estado Islâmico – os anonimamente amigos de Erdogan.

Pessoas de minoria curda yazidi caminham pelo corredor de resgate instalado pelas forças curdas, fugindo do terror do ISIS em Sinjar (Shengal), no Iraque
Pessoas de minoria curda yazidi caminham pelo corredor de resgate instalado pelas forças curdas, fugindo do terror do ISIS em Sinjar (Shengal), no Iraque

 

Combatente curda do YPJ (Unidades de Proteção Feminina) - as curdas têm papel destacado na luta contra o ISIS e pelo Confederalismo Democrático na Síria.
Combatente curda do YPJ (Unidades de Proteção Feminina) – as curdas têm papel destacado na luta contra o ISIS e pelo Confederalismo Democrático na Síria.

 

Mulheres árabes junto a curdas na operação de libertação de Raqqa
Mulheres árabes junto a curdas na operação de libertação de Raqqa

EUA, Rússia e implicações

Mas lançar esse ataque não é tão simples como parece, pelo fato de serem áreas com presença de forças russas e estadunidenses. Os russos estão presentes em Efrin, lado oeste, a região mais vulnerável nesse conflito, enquanto os estadunidenses estão presentes no lado leste, lado que se situa a cidade de Manbij, também na mira turco-salafista-terrorista.

O tabuleiro da política internacional está cada dia mais complexo e turvo: anteriormente bastante alinhados, aliados históricos e companheiros de OTAN, Turquia e EUA vêm esmorecendo suas relações paulatinamente; a questão curda, a questão palestina e declarações polêmicas são um pouco do que mais tem sido a causa desse esfriamento das relações; por consequência disso, mas também como um motivo a mais, há uma proximidade cada vez maior do país turco com a Rússia, que é um estado que também mantém tropas no curdistão sírio, mas que, ao contrário de Ancara e Washington, são aliados de Damasco.

Putin, presidente da Rússia, em encontro com seu homólogo turco Recep Erdogan: essa cena tem sido cada vez mais recorrente
Putin, presidente da Rússia, em encontro com seu homólogo turco Recep Erdogan: essa cena tem sido cada vez mais recorrente

Mesmo que Putin nunca tenha se inclinado a favor dos curdos, seja em ação ou ao menos em declaração, também não é de interesse do maior aliado de Assad uma presença militar de um Estado contrário ao presidente sírio dentro de seu país, ainda mais uma presença militar de um adversário (ou inimigo) em operação de guerra. Mas essa crescente proximidade de Ancara com Moscou (inclusive por comporem a mesa de negociações em Astana, capital cazaquistanesa, junto com Irã) e o desinteresse russo em defender os curdos, podem fazer Erdogan recuar taticamente em sua oposição a Assad em troca de passe livre para atacar os curdos, que, a propósito, podem ser a próxima pedra no sapato de Assad após suas forças eliminarem os últimos focos de rebeldes do país.

A situação ainda mais delicada de Washington

Nesse contexto, os EUA ficam em uma situação profundamente delicada. Enquanto os curdos têm nos EUA um aliado tático para a batalha contra o ISIS, os EUA apostam nos curdos suas últimas fichas geopolíticas na região, pois as forças rebeldes anteriormente apoiadas pelos EUA ou foram liquidadas, ou estão prestes a ser, ou tornaram-se jihadistas e se alinharam com outras forças islâmicas mais extremistas, como o ISIS e o Tahir Al-Sham (HTS). Diante disso, há algum tempo os EUA vêm apoiando os curdos na luta contra o ISIS, mas também com o objetivo de terem neles força capaz de influenciar a região de acordo com seus interesses.

Bases militares estadunidenses foram instaladas ao longo da região controlada pelas Forças Democráticas Sírias (frente ampla político-militar coordenada pelos curdos através das YPG-YPJ), mas os EUA terão de medir o quão dispostos estão em defender os curdos e suas instalações na região, uma vez que os riscos iminentes dessa defesa envolvem tanto suas relações políticas internacionais, quanto a perda de homens em guerra.

Estariam os EUA dispostos a manter suas tropas caso a Turquia lance uma ofensiva militar real contra os curdos, e dispô-las a defendê-los? Caso proceda uma guinada turca ao lado Putin da força, os EUA se veriam completamente isolados no que diz respeito aos estados envolvidos diretamente na guerra Síria, e estariam sozinhos (em se tratando de Estado) diante de Síria, Rússia, Irã e Turquia. Parece não haver escapatória que não seja traumática para Washington: ou se retira, ou assume um risco potencial.

A ameaça Erdogan

Não é a primeira vez que Erdogan emite comunicados com essa abordagem, mas agora evidencia-se uma maior contundência em seus pronunciamentos e de seus aliados. Desde quando cruzaram a fronteira de Idlib e se instalaram ao sul de Efrin, movimentações militares nos arredores do cantão curdo tornaram-se constantes, com trânsito de blindados, armamentos, caminhões e pessoal.

Pode ser um blefe, uma ofensiva na guerra de declarações e afrontas, mas é certo que a ameaça existe e está batendo à porta curda. O que o Estado terrorista turco definitivamente não está é brincando com essa questão: a pauta que mais ferve na mesa de Erdogan é a de impedir o sucesso das Forças Democráticas Sírias, pois isso fatalmente fortaleceria o movimento curdo no sudeste turco, e para tanto, o estado membro da OTAN é capaz de muito.

Erdogan: presidente turco condena Israel de cometer contra palestinos a mesma perseguição e violência que comete contra os curdos
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P.A Gatti

Interessado no Oriente Médio e na questão curda em especial, posto eventualmente no Coyote sobre esses e outros assuntos políticos.