Um debate urgente a respeito da mistificação da China “socialista”

06 de outubro de 2019, Bruno Lima Rocha*

Apresentação: a falsa dicotomia

Nas comemorações dos 70 anos da Revolução Chinesa e de toda a complexidade deste processo, tivemos uma apoteose cibernética em língua portuguesa de louvor ao “socialismo” chinês. As palavras que seguem são fruto dos embates sobre o tema que venho participando nos primeiros dias de outubro. Espero contribuir para a desmistificação e a defesa incondicional da liberdade do povo Uyghur, no Turquestão Leste, a província de Xinjiang ocupada pelo Estado Mandarim. E também e porque não, pela liberdade de manifestação e a defesa de uma internet política não criminalizada em Hong Kong. Além dessa gigantesca preocupação, há um esforço sincero de não atirar na vala comum o conceito de SOCIALISMO não trocando-o por um “mal  menor” ou “imperialismo  alternativo”. O começo é a falsa dicotomia, pois parece que a humanidade deve se contentar entre um governo autocrático que gera bem estar da maioria e progresso econômico; ou um capitalismo selvagem com liberdades individuais emas tendo os direitos sociais permanentemente atacados? Só existem duas opções para apontar preferências, simpatias ou mesmo caricaturas de propaganda disfarçadas de “teoria”? Logo, devemos supor que o elogio aos autocratas de capitalismo dirigido seja algo “desinteressado”? Evidente que não.

 Sobre a China e a repressão em Hong Kong e o elogio tropical ao autoritarismo  

Há uma suspeita concreta da presença de Bannon e asseclas, mas longe de ter a influência narrada pelos amigos de Beijing. Eu vejo como sendo meio impossível uma maior presença dos EUA no sentido de uma ‘revolução colorida’ ali. A legislação de HK caminha para algum grau de controle total pela segurança interna de Beijing, e entendo que esse é o ponto nevrálgico. Faço a seguinte projeção. Se todas as transações comerciais, as conversações interpessoais são co-armazenadas em bancos de dados compartilhados pelo aparelho de segurança, a possibilidade técnica de controle total já está, o problema é a legalidade que legitime essas ações. Vejo esse como o tema central hoje no ex-enclave britânico. Também incluo como óbvia a condição mais “cosmopolita” de sua juventude (de 18 a 30 anos), incluindo a presença do retorno da diáspora chinesa de pós-Guerra Fria para HK e a explosão do custo de vida, especificamente do solo urbano e os custos de moradia.

Mas, se a lista de elementos acima parece tão evidente e com tanta facilidade checada, por vezes fico me perguntando: de onde vem tanto elogio e desinformação sobre as lutas sociais, políticas e étnicas da China? Tenho uma pista e sem ilusões.

Aqueles e aquelas que colocam no mesmo ralo um milhão de pessoas em Hong Kong (imaginem se toda a multidão for a favor do colonialismo!) e defende a repressão do governo local pró Beijing são apoiadores dos facínoras que colocam outros um milhão de uyghures no Turquestão Leste (província de Xinjiang) ocupado em campos de concentração. Essa gente se projeta como intelectuais em um regime de força filiados ao partido único. No mundo burguês é parte da oposição circunstancial. Dentro desta possibilidade vale tudo, incluindo trabalhar em ditaduras para promover a “capacidade estatal”, tal como durante o período da coexistência pacífica recomendada por Moscou. Não nos iludamos com a herança do stalinismo tropical em tempos de democracia liberal em crise. Correm da repressão aqui ou caminha rumo ao centro sem cessar e ao mesmo tempo elogiam a repressão na China.

A respeito da República Confuciana dos Han Mandarins

Infelizmente a República Popular da China é um colosso econômico, fenômeno da modernização e uma tragédia política. Antes o PC Chinês do que a máfia do Kuomintang em Taiwan, mas antes ainda nenhum desses dois e a luta da Praça da Paz Celestial, dos comunistas coletivistas na década de 60, da resistência de Xinjiang para libertar o Turquestão, a maior parcela dos rebeldes de Hong Kong e a desobediência civil no Tibet. A China é uma potência capitalista com o Poder Central subordinando a classe proprietária. Não é nem socialismo de Estado e caminha para um controle total do comportamento da cidadania, dando liberdade apenas para o empreendimento capitalista. Fazendo trocadilhos com os lemas, Deng Xiao Ping mandou: Enriqueçam! Xi Jinping reforça o lema: Obedeçam!

Pode-se trabalhar com alguma ideia idílica fantasiosa do maoísmo após a conquista militar na China em outubro de 1949. E reconheço que tem gente que se dedica de forma heroica a esta causa (embora com métodos de trabalho popular tenebrosos, exemplos passados de Peru e Nepal e hoje ainda na Índia). Para quem ainda idolatra o ex-comandante do Partido Confuciano Chinês, vale se lembrar do óbvio. A reaproximação com os EUA se deu pouco menos de dois anos após decretar o fim da “revolução cultural” (1966-1968, em sua fase mais elevada) e jogar uma massa de jovens sedentos por participação contra a burocracia de seu próprio partido único, daí a criação das “organizações de massa”, abolidas quando da “retificação”. Restabelecer relações diplomáticas com os Estados Unidos em plena Guerra do Vietnã não foi nada correto em termos do “movimento socialista internacional”. Menos ainda o conflito que estourou no final da mesma década, com Mao já falecido.  Houve conflito interno para se livrarem do Bando dos 4, mas a capacidade autocrática do Estado jamais foi questionada. O germe estava ali, faltava o desenvolvimento das forças produtivas.

Sim, a China tem um impressionante avanço na modernização econômica. Não, a China nunca foi um modelo de socialismo com sequer um suspiro de democracia. E não, a China não é um país nem de Capitalismo de Estado, mas de capitalismo comandado pela centralidade do poder político-burocrático. O regime por excelência do mandarinato que um dia foi pintado de vermelho. Ah sim, é uma potência rival dos EUA e quanto mais potências mais espaço no Sistema Internacional, mas fora isso.

Sobre China, Irã e crimes de Estado em qualquer lugar e de todo aparelho de Estado

Outro argumento permanente na defesa da China é sua posição “anti-imperialista”. Observem o Corredor Econômico China Paquistão (CPEC) e a relação direta da Inteligência Paquistanesa (IS) na segurança física e eletrônica no Porto de Gwandar, alto investimento chinês no litoral do Balochistão. É a receita de sempre: limpeza étnica, mudança de perfil populacional e exploração de recursos primários. Perguntem para a população do Balochistão (cujo território maior é como província paquistanesa, um país invadido) e veja qual será a resposta.

Se a China fosse atacada pelos EUA eu seria solidário assim como sou com a República Islâmica (xiita) do Irã. Detalhe: o Estado persa é muito mais democrático do que os governados por Xi Jinping. Mas quando a China tem campos de concentração para os uyghures de Xinjiang e ocupa militarmente o Turquestão Leste eu não tenho simpatia alguma. Por esta postagem eu seria processado na lei de segurança chinesa e esse perigo aciona os manifestantes de Hong Kong. Quando o Irã enforca os presos políticos do PJAK – partido socialista da esquerda curda, dentro do guarda-chuva do PKK – eu fico tão irritado quanto. Mas nem por isso me nego a falar para a Hispan TV quando o tema é criticar a postura saudita no Golfo Pérsico. Ser solidário ao antiimperialismo contra os EUA jamais foi ser conivente com os crimes de Estado sob qualquer circunstância. A não ser que o tema seja apenas seguir e gritar palavras de ordem de apoio incondicional. Isso é “militância” decolonial? Evidente que não.

Parece que quanto mais se estuda e se conseguem dados e elementos de análise, mais peso a propaganda e a mistificação na internet se vê “empoderada” nos seus sistemas de crenças. Diante das acusações de limpeza étnica, deportações e prisão em massa da população masculina do Turquestão, o argumento falso é que todos seriam suspeitos de terrorismo. Isso se chama ISLAMOFOBIA, simples e tétrico assim. Eu tenho certeza de que mais de 15 milhões de uyghures (povo de origem túrquica e islamizados no sunismo) não são jihadistas salafistas, e que sim, há forças políticas salafis e wahhabi  atuando ali, e a resposta do governo chinês é terrorismo de Estado. O problema não é negar a realidade e sim assumir que ao elogiar um Estado autocrático esse tipo de recurso de controle populacional entra no cálculo como válido. No fundo, ou nem tão no fundo assim, todo elogio ao Stálin é um elogio velado para a limpeza étnica anti-islâmica ao menos, haja vista o ocorrido no Cáucaso com circassianos, ingushétios, avaris, chechenos, balkaris, tártaros da Crimeia, azeris dentre outros grupos não islamizados.

A repressão anti uyghur é muito mais antiga do que o jihadismo moderno do TIP (ETIM), que operacionalmente data da década passada. E a região é “chinesa” há menos de um século; considerando que o território foi invadido militarmente pela República Popular da China.

Sobre a economia capitalista chinesa e o contrapeso à Superpotência no Sistema Internacional

Do ponto de vista do desenvolvimento das forças produtivas, eu entendo que há certa convergência, mas do ponto de vista político de forma muito fraterna vejo que há ainda alguma ideia de determinação neste próprio raciocínio. Não quero que a experiência chinesa fracasse para uma potência capitalista rival aos EUA, mas entendo a China como um Estado Mandarim e não um Estado de Transição e nem que esteja germinando uma experiência socialista.

Do ponto de vista político me apavora o fato de haver um Estado autocrático que controla a vida do cidadão no sentido não de suas escolhas controladas – visto que há livre iniciativa – mas da vigilância absoluta e da punição passível por suspeição. Por exemplo, um debate como esse não sei se passaria despercebido na internet deles, e pode ser passível de punição. Sei que muita gente que admira a China não é adepta do autoritarismo, mas ainda resta na esquerda ou na ex-esquerda que está viúva do Leste Europeu a repetição do Lênin e sua concepção de “liberdade” (obs: isso foi uma ironia). Assim, esta forma de pensamento e esta posição elogiosa à distância acabam negando a experiência histórica do Terrorismo de Estado, normatizando tudo ancorado em Losurdo e outros intelectuais salvacionistas (neste ponto o facínora do Dugin foi mais criativo, ao mistificar a mistificação) tentando justificar o injustificável.

Que ótimo que a China se industrializou, mas nosso país fez isso antes e não foi às vias de fato no momento histórico devido (na resistência ao golpe de 1946, que não houve). O capitalismo argentino, uruguaio e chileno chegou a converter quase 85% de seu produto industrial, então estamos falando na necessidade de defender a indústria nacional e não necessariamente que isso vai ser etapa para algo.

São dados interessantes, mas vejamos a população da China, de fato controlada. Não teria a possibilidade de experimentos nem de democracia local? E nas eleições para os membros do partido, o Comitê Central e seu Bureau Político apresentam a lista. Ou seja, segue a dependência de uma elite ilustrada, enquanto o modelo der certo. Eu realmente entendo que uma elite política como a chinesa deve estar muito preocupada em conseguir mais representação e capilaridade dentro de sua própria sociedade.  Dentro de uma teoria de partido único leninista ou pós-leninista dirigindo uma economia mista, isso vale. Não há organização livre na sociedade a não ser para empreendimentos econômicos privados de diversos matizes e associações culturais e desportivas controladas.

Enfim, vejo a experiência chinesa como a consagração de uma versão contemporânea da Civilização Sínica, Sino-Mandarim, e para tal tiveram como força motriz uma ideologia e um campo de alianças nos primeiros três quartos do século XX que oferecia desenvolvimento das forças produtivas e soberania estatal (o que já não é pouco). Mas é isso? É “socialismo”? Não. Vai dar em alguma experiência de bem estar coletivo para mais da metade da população urbana do país? Creio que sim. Vai distribuir poder para o povo, poder social, socialização dos processos fundamentais em uma sociedade complexa? Tudo parece que não.  

Conclusão: sobre o “socialismo” do Imperador Mandarim

Tem uma “coisa” que não desce. A China tem uma economia socialista? A China tem experimentos democráticos de poder local? A China tem experiência de autogestão industrial? Então quem reivindica a China por “esquerda” reivindica o que? O dirigismo estatal sobre o desenvolvimento capitalista acelerado? Se é apenas isso, se trata de socialismo? Ah mas o imperador Xi Jinping disse que em 50 anos iam chegar ao socialismo. Como? Obedecendo e trabalhando? Então o suposto socialismo seria como um formigueiro? É só isso? É essa “idealização de materialidade concreta” que os neo stalinistas reivindicam sem cessar? Em função do que? De ter uma potência rival dos EUA? Então geopolítica virou “socialismo”? Assim está difícil pessoal, é muito fetiche, é fetiche demais.

*Bruno Lima Rocha (estrategiaeanaliseblog.com / blimarocha@gmail.com / t.me/estrategiaeanalise) é pós-doutorando em economia política, doutor e mestre em ciência política, graduado em jornalismo e professor nos cursos de relações internacionais, direito e comunicação social.

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