Um resumo da crise de 2008

Para entendermos a crise de 2008 é necessário entendermos primeiramente o funcionamento do crédito hipotecário americano durante o período em que a mesma aconteceu e os papéis da dívida que se tornaram um “produto” financeiro. As hipotecas foram e ainda são um dos principais mecanismos de aquisição de empréstimos nos Estados Unidos. Para o leitor que ainda não está familiarizado com este termo, explico: trata-se, basicamente, de oferecer sua casa ou outro imóvel como garantia de pagamento de uma dívida contraída com um banco. Após emprestarem este dinheiro, os bancos americanos vendiam essa dívida em forma de título (documento que certificava a propriedade de um bem ou valor) a terceiros. Isso é fundamental para entendermos a crise de 2008: de um lado havia uma ampla oferta de crédito, em março de 2008 batia-se o valor de US$12 trilhões de dívidas hipotecárias. Já por outro lado, existia a criação de um mecanismo que fazia com que o banco antecipasse a recepção do dinheiro emprestado, vendendo a dívida a terceiros. Essa “explosão” de crédito hipotecário alimentou a construção civil daquele país, que passou a ofertar mais imóveis com o atrativo de crédito fácil para quem adquiria uma propriedade nova, possibilitando ao comprador adquirir mais empréstimos desta natureza.

Antes do ápice da crise, em 2006, o mercado hipotecário americano já começava apresentar um fenômeno denominado “bolha” (bolhas ocorrem quando o preço de um determinado bem ou ativo financeiro se eleva acima do valor real). Aconteceu que, todo este crédito disponível começou a inflar os preços dos imóveis americanos. As instituições financeiras avaliavam estes imóveis num valor cada vez mais alto. Isso ocorria devido ao fato de que uma família podia hipotecar sua casa mais de uma vez (e muitas o faziam), com o valor mais alto em outras instituições financeiras para quitar a hipoteca anterior já realizada. Nesse processo, algumas famílias chegavam a possuir mais de três hipotecas (para entender melhor essa dinâmica, indico o filme: “Capitalismo: Uma História de Amor”, 2009, de Michael Moore).

Nesse cenário, a inadimplência começou a subir, ou seja, cada vez mais os americanos deixavam de pagar seus empréstimos, e aqueles papéis da dívida que o banco vendeu (títulos) já não possuíam garantia alguma. Aos títulos com alto risco de inadimplência ou que já estavam em inadimplência (veja gráfico 4 deste página 48 deste link) deu-se o nome de subprime. Os subprime derivados dos empréstimos hipotecários continuaram a ser negociados mesmo com o crescimento da inadimplência. Além disso, o endossamento das agências de riscos que deram notas altas aos bancos e aos títulos subprime, fez com que os mesmos fossem se valorizando cada vez mais.

Entre 2007 e 2008 essa situação se tornou insustentável, os preços dos títulos subprime e dos imóveis despencaram, levando grandes bancos como o Lehman Brothers à falência e deixando milhares de americanos, que não conseguiram pagar suas hipotecas, sem casa.

Agora que o leitor entende que o crédito crescia e os papéis da dívida se valorizavam, mesmo com a inadimplência, surgem as perguntas: Será que ninguém notou que havia algo errado? O governo americano não tomou nenhuma atitude contra isso? Vamos a algumas repostas… Quanto à primeira pergunta: sim! Antes do estouro da “bolha” em 2008, muitas pessoas já haviam percebido algo errado. O filme “A Grande Aposta” (2015), de Adam McKay, inclusive, mostra a história real de alguns investidores que perceberam que os títulos subprime eram “lixos”. Já o filme: “Margin Call – O Dia Antes do Fim (2011), de J.C. Chandor, mostra que já existiam estudos de volatilidade1 que demonstravam a existência da “bolha” no mercado de hipoteca americano. Dentre estes estudos, podemos destacar o de Robert Shiller que, um ano antes do estouro da bolha que levou à quebra dos maiores bancos americanos, escreveu um artigo demonstrando a existência dela.

USA – EUA/CRISE/BOLSA – ECONOMIA – Movimento na Bolsa de Nova York na tarde desta segunda-feira. O coração do sistema financeiro norte-americano foi sacudido no domingo: o Lehman Brothers pediu concordata e o Merrill Lynch fechou acordo para ser vendido ao Bank of America (BofA). 15/09/2008 – Foto: DAVID KARP/ASSOCIATED PRESS/AE

Bem, acerca da segunda pergunta, que é talvez a mais desconcertante, para entender o comportamento do governo americano basta ver o argumento do principal órgão regulador da política monetária, o FED – Federal Reserve System (Sistema de Reserva Federal dos Estados Unidos “Banco Central”), antes que a crise estourasse: “a desregulamentação dos mercados financeiros favorece toda sociedade”, sendo o governo americano baseado nas teorias de desregulamentação de mercados e auto regulação, não realizou qualquer ação para intervir nesta situação.

Quando a “bolha” estava para estourar, Henry Paulson, Secretário do Tesouro em 2006, tentou evitar o desastre, intervindo junto aos bancos americanos, o que só resultou em um Plano já depois do estourar da “bolha”, o chamado Plano de Intervenção 2008. Ao mesmo tempo, o FED2 se tornou o emprestador de última instância para os bancos, a fim de amenizar o efeito da quebradeira dos mesmos.

A crise foi, portanto, sintoma de problemas econômicos. Primeiro, em razão do excesso de oferta de crédito pelos bancos, que passaram a ofertar a quem já não tinha condições de arcar com suas dívidas. Em segundo, devido a crença na racionalização e auto regulação dos mercados, que fez com que tanto os bancos como o governo americano permitissem que os papéis derivados das hipotecas sem garantia necessária continuassem a circular, inflando a bolha imobiliária.

1 Medida de intensidade e frequência das flutuações de preço de um ativo.

2 O leitor pode entender melhor o papel do fede neste link .

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Saul Amorim

Cursou economia e está fazendo graduação em ciências politicas