Uma carta aberta aos pais (e em especial às mães) do movimento anti-vacinas:

Antes de começar, quero pontuar algumas coisas para que nos entendamos melhor e para que essa carta não soe como um ataque a vocês ou a seus filhos não-vacinados. Eu sou doula. Defendo que pacientes do SUS tenham acesso a práticas integrativas e complementares aliadas à medicina tradicional, defendo formas alternativas de disciplina para crianças que não envolvam castigos físicos e luto, tanto na minha prática profissional quanto na minha vida pessoal, contra as consequências da medicalização desnecessária do parto. Dito isso, eu sei que, como eu, vocês também são pessoas educadas. A maioria de vocês tem acesso à educação formal e à informação. Eu sei que vocês amam seus filhos, que querem o melhor para eles e que foi isso que fez com que vocês questionassem a necessidade das dezenas de vacinas que seus bebês tomam ainda nos primeiros doze meses de vida. Eu entendo.

Mas a decisão de não vacinar seus filhos, ao contrário do que pode parecer, não diz respeito apenas à sua família: também diz respeito à família de outras pessoas, especialmente àquelas que estão numa situação de vulnerabilidade social da qual a sua teve a sorte de escapar.

Como vocês podem imaginar pelo início desta carta eu sou “pró-vacinas” (esse termo ainda é muito estranho aos meus ouvidos a ponto de eu não conseguir escrevê-lo sem as aspas). Conhecer pessoas mais velhas, especialmente do interior onde nasci, com sequelas graves de doenças que poderiam ter sido facilmente prevenidas se elas tivessem tido acesso à vacinação na infância é realmente triste. Conhecer crianças que por n motivos sofrem de sequelas destas mesmas doenças sendo que já temos vacinas disponíveis para elas é mais do que triste, é uma tragédia. Sou imensamente grata à minha mãe, que talvez por ter perdido um irmão recém-nascido para uma difteria, sempre fez questão de que nossas vacinas estivessem em dia. Há algumas décadas atrás, era comum assistir seus filhos morrerem deste tipo de doença. Especialmente se você fosse de uma família simples, do interior, sem acesso a saneamento básico ou atendimento médico. Minha avó passou por isso. Muitas famílias AINDA passam por isso, em menor escala por causa da popularização de vacinas como a DTP, que se toma aos dois meses de vida (e que poderia ter salvado a vida do meu tio caso ele tivesse tido acesso a esse tipo de imunização na década de 50).

As vacinas são uma das medidas mais importantes da medicina preventiva para proteger a população de doenças e infecções. Desde que a vacina chegou ao Brasil em 1804 (tendo sido popularizada muito mais de cem anos depois), ela contribuiu para diminuir e, em alguns casos, até erradicar doenças comuns e mortais como varíola, peste bovina, malária e pólio [1] Apesar disso ser fato conhecido, cada vez mais pessoas decidem entrar em movimentos anti-vacinação. Movimentos que espalham medo, desconfiança e que tem como porta-vozes figuras como Jenny McCarthy e Kat Von D. Pais jovens vem sendo confundidos por pessoas desequilibradas e sem o menor reconhecimento da comunidade científica que acreditam que vacinas fazem parte de uma conspiração governamental para ferir crianças propositalmente [2]. O argumento mais comum usado pelos movimentos anti-vacina e que causa horror nos pais que são expostos a esse tipo de desinformação, é o de que o suposto aumento no surgimento de crianças com autismo teria relação direta com o aumento no número de imunizações. Além da psicofobia óbvia de quem espalha esse tipo de boato, uma vez que o autismo NÃO É UMA DOENÇA e não é comparável (pelo menos para mim que convivo com meu próprio transtorno mental e com amigos e colegas de faculdade autistas) às sequelas ou à morte de um filho causadas por uma doença altamente prevenível, ele também ignora que o aumento no surgimento de crianças com esse diagnóstico em países ocidentais provavelmente tem muito mais relação a um maior acesso a acompanhamento psiquiátrico infantil do que a qualquer outra razão.

A academia americana de pediatras compilou uma lista de pesquisas científicas reconhecidas e revisadas pelos pares, que indicam que não existe nenhuma associação entre vacinação e autismo [3]  . Essas e outras informações e pesquisas que cito aqui estão linkadas no decorrer da carta e ao final dela.

A campanha anti-vacinação, apesar de atingir um grupo relativamente pequeno de pessoas, a maioria delas com acesso a saneamento básico, cuidados médicos e menor vulnerabilidade a certos tipos de doença, pode e já causou num passado recente surtos de males considerados “extintos”. Um exemplo foi a recusa de alguns pais britânicos em vacinar seus filhos nas décadas de 1970 e 1980 contra a coqueluche, em resposta à publicação de um relatório de 1974 que creditou 36 reações neurológicas adversas à vacina [4] . Isso causou uma diminuição no número de imunizações contra coqueluche no Reino Unido de 81% em 74 para 31% em 1980, resultando em um surto. O número de vacinas voltou a níveis normais após a publicação de uma reavaliação nacional da eficácia da vacina que reafirmou os benefícios da mesma, bem como incentivos financeiros para clínicos gerais que atingissem a meta de cobertura vacinal. A incidência da doença diminuiu drasticamente como resultado. Os efeitos de um surto como esse em países como o nosso ou em países com população ainda mais desassistida teria consequências muito piores do que as sofridas pelo povo britânico.

Eu sei que vocês nunca colocariam seus filhos em risco propositalmente e eu falo sério quando digo que desejo que seus filhos tenham vidas longas e saudáveis. Imunizar a sua família de doenças letais é importante porque você não sabe qual tipo de patógeno o colega do seu filho (ou a atendente da padaria, o farmacêutico, o carteiro ou seus próprios parentes), que talvez também tenha pais que decidiram não o vacinar ou que viajaram para o exterior, pode transmitir. Eu também sei que talvez vocês se sintam protegidos porque, sendo cercados de indivíduos imunizados, muito dificilmente seus filhos pegariam doenças horríveis como poliomielite. Mas vocês não estarão protegidos uma vez que celebridades com milhões de seguidores como a Kat von D conseguirem persuadir milhões de pais que não vale a pena imunizar crianças. Crianças que dividirão carteira com seu filho na escola. Vocês não estarão protegidos uma vez que políticos e pessoas influentes dentro dos círculos militantes convencerem outros milhões de que os riscos do seu filho desenvolver autismo através de vacinas são maiores do que pegarem uma meningite. Optar por não vacinar seus filhos e engrossar as fileiras desse tipo de movimento é o que torna essa decisão tão perigosa. Quanto mais alcance essa idéia tiver, mais perigosa ela se torna. Nem tanto para mim, eu sou imunizada – perigosa para você e sua família e duplamente perigosa para as famílias não imunizadas por motivos de pobreza e falta de acesso à atenção básica de saúde.

Agora, que as comunidades globais estão mais conectadas do que nunca, o que significa uma probabilidade maior de transmissão, a opção pela não vacinação é um erro, até para as famílias que por questões de classe e acesso se sentem imunes a doenças como sarampo ou rubéola. Além disso, é uma ameaça à saúde coletiva. Com isso, não quero dizer que você e seus filhos não vacinados são a causa do possível contágio e morte de outras pessoas em posições menos privilegiadas. O que eu quero dizer é que suas decisões podem, inadvertidamente, fazerem parte do problema de outras famílias que não estavam ao seu lado quando você optou por não vacinar seus filhos.

Outros artigos científicos sobre o tema:

[5] Parents’ vaccination comprehension and decisions

https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/18295940

[6] “Herd immunity”: a rough guide.

https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/21427399

 

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Daniela de Abreu

Doula, feminista e amante de trash horror.