Uma filosofia da Autodefesa- Parte II

Por Chad Kautzer , originalmente publicado no Boston Review

Parte I

Hierarquias Sociais e a Formação do Sujeito

Para demonstrar como a autodefesa pode ter vários efeitos e porquê uma teoria crítica da autodefesa deve sempre considerar as relações de dominação, precisamos entender de que maneira o indivíduo é, ao mesmo tempo, físico e social. Por físico, quero dizer que é através do corpo que experimentamos e conhecemos o mundo e a nós mesmos, e não a partir de uma mente abstrata e incorpórea. O corpo orienta nossa perspectiva, e é socialmente visível, vulnerável e limitado. Boa parte do conhecimento a respeito do mundo social e físico é colocado em prática através do corpo. Nos é atribuído um sexo, uma raça e um gênero, não apenas “externamente”, através da forma como somos vistos ou como as instituições nos rotulam – como, por exemplo, feminino, masculino, queer, deficiente, branco e negro – mas também “internamente”, pela forma como nos autoidentificamos e performamos estas identidades sociais em nosso comportamento consciente e linguagem corporal. Somos condicionados às hierarquias sociais, e no momento em que nos tornamos capazes de confrontar nossas identidades já passamos por esse condicionamento. Resistir envolve desaprender nossos hábitos em pensamento e prática, bem como transformar as instituições sociais. Como aponta David Graeber, “as formas de dominação social são vivenciadas de maneiras tão íntimas – em hábitos corporais, instintos de desejo ou repulsa – que frequentemente parecem essenciais para nosso próprio senso de existência no mundo.”

Já que nosso lugar na hierarquia social determina em parte nossa identidade social, o indivíduo que se desenvolve é social e político desde o início. Não significa que estamos “presos” ou condenados a uma certa identidade ou papel, tampouco que podemos simplesmente decidir por nos autoidentificarmos em algum outro lugar nas hierarquias sociais ou de alguma forma se ausentar delas. Temos certa liberdade em termos de autoidentificação, mas a autoidentificação não muda por si só as relações institucionais ou níveis de agência, respeito, riscos, oportunidades, ou acesso a recursos. Estes tipos de mudanças só podem ser alcançadas através de lutas sociais e políticas. Nossas identidades corporais são áreas de conflito, construídas e reconstruídas através de nosso cotidiano bem como através dos movimentos sociais. Sendo as ações e percepções dos outros parte do desenvolvimento das nossas próprias, incluindo nosso autoconhecimento, dizemos que o indivíduo é mediado, ou formado através de nossas relações com os outros em sistemas de produção, consumo, educação, legislação e assim sucessivamente.

Em “As Almas do Povo Negro” (1903), W.E.B. Du Bois teorizou a vida negra numa sociedade supremacista branca como vivenciando um indivíduo dividido em dois, uma espécie de internalização de uma divisão social que produziu a chamada “dupla-consciência”, ou “a sensação de sempre se enxergar através dos olhos do outro, de analisar a alma de alguém numa perspectiva global de fascínio e pena”. Apesar do indivíduo poder se enxergar enquanto capaz, belo, inteligente e digno de respeito, as instituições sociais as quais se faz parte podem partir de uma ideia totalmente contrária. Parte da experiência da opressão é viver sob esta “visão do outro” de categorização no cotidiano. Mesmo quando o indivíduo conscientemente luta por resistir à difamação e se agarrar à uma relação positiva consigo, a hierarquia social infiltra-se em sua autocompreensão. Mesmo nos momentos mais íntimos de introspecção, uma autoconsciência unificada nos escapa porque nossa autocompreensão não é capaz de romper com as relações sociais e ideologias que a geram.

O conflito social é internalizado, e é preciso bastante força somente para se manter; para viver como sujeito enquanto outros te enxergam e te tratam como pouco mais que um objeto, e quando lhe são negadas as liberdades, recursos e segurança desfrutados por outros. Por fim, somente subvertendo as condições sociais da opressão através da resistência coletiva será possível unificar a consciência dupla que Du Bois descreve.

É o racismo que produz a raça e não o contrário. Categorias raciais surgem de relações práticas de dominação, diferentemente de grupos étnicos, que são formas culturais de vida coletiva que não tem necessidade de se definir em contrapartida a outros. Categorias raciais não são abstratas ou biológicas, mas são constructos sociais inicialmente exógenos, logo reconfigurados internamente através das lutas sociais. Como com toda relação de dominação, os significados originais difundidos atribuídos a um grupo são contrários aos atribuídos a outros, existindo portanto enquanto dicotomias gerais. Essa relação de oposição nos significados reflete a oposição hierárquica dos grupos na realidade material – um fato que não é natural nem contingente.

Masculinidade e feminilidade, por exemplo, não são categorias naturais: são papéis sociais dentro de uma ordem social e portanto tem um histórico assim como grupos sociais. No entanto, como ocorre com a raça, as relações sociais e simbólicas de gênero não são contingentes. De fato, a masculinidade e a feminilidade apresentam um certo tipo de lógica encontrada em toda forma institucionalizada de dominação social. Sendo o gênero uma forma de ordenar hierarquicamente as relações humanas, as características associadas com o grupo dominante funcionam de forma a justificar esta dominação. Membros deste grupo são tidos, por exemplo, como mais fortes, mais inteligentes e mais morais e racionais. Praticamente todos os âmbitos da vida social refletirão isso, da divisão do trabalho às formas de entretenimento.

Na verdade, o grupo dominante não domina por ser mais virtuoso ou racional – com efeito, a profundidade de sua crueldade é ilimitada – mas justamente por conta de sua dominância pode propagar a ideia de ser mais virtuoso, racional ou civilizado. “A “missão civilizatória” colonial”, diz María Lugones, “era a máscara eufemística para o acesso brutal aos corpos através da exploração inimaginável, violação sexual, controle reprodutivo, e terror sistemático.”

A dependência fundamental do opressor em relação ao oprimido está mascarada em todas as ideologias de dominação social. Ainda que a própria existência do colonialista, capitalista, supremacista branco e patriarca resida na exploração contínua dos outros, eles propagam a ideia de um mundo invertido onde estão livres de todas as dependências. Esta é a camera obscura da ideologia que Karl Marx discute em A Ideologia Alemã (1845-46). A supostamente natural falta de autonomia dos grupos subordinados é, dizem, a razão da hierarquia social. Trabalhadores dependem dos capitalistas para empregá-los e pagá-los, mulheres precisam dos homens para bancá-las e protegê-las, pessoas não-brancas necessitam de brancos para controlar e decidir por elas, e assim adiante.

A resistência à dominação denuncia a farsa deste mundo invertido, desestabilizando as operações práticas da hierarquia e subvertendo seus mitos, como o da soberania masculina, superioridade branca, heterossexualidade compulsória, e a invenção capitalista do valor. A violência e as várias formas de coerção sustentam estes mitos, mas tal violência seria ineficaz se tais grupos não fossem socialmente, politicamente e legalmente estruturados para serem vulneráveis a ela.

 

 

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