Úteros caminhantes?

O debate sobre a legalização do aborto, como tem sido feito, gravita quase que obsessivamente em torno da “humanidade” do feto no útero. O embrião sente dor? Tem consciência, alma? É uma vida desde a concepção? Deve ter direito à personalidade civil antes do nascimento (vide estatuto do nascituro)? Para além de todas essas perguntas – de uma perícia científica e uma magnificência jurídica incontestáveis, diga-se de passagem – que ainda inspiram dúvida nos nossos doutos amigos das redes, há ainda outro mistério:  O que existe além do feto no útero? O que seria essa entidade metafísica de ossos e tecidos que sustém o “milagre da vida” até que ele esteja pronto para vir ao mundo? Não sou muito de teorias da conspiração mas minha intuição me diz que há alguma coisa para além de um container de bebês, ainda que nós não saibamos exatamente o que ela é.

Primeiramente, existem evidências fortíssimas de que estas coisas que chamaremos aqui de incubadoras respondem a estímulos externos e possuem sensações que se assemelham muito a sensações humanas. Não que isso signifique muita coisa, afinal, os macacos e os gatos também sentem dor, fome, frio e isso não significa que eles sejam nossos irmãos em humanidade e direitos.

Mas existem também outras evidências preocupantes, por exemplo, a de que estas incubadoras, não só possuem processamento sensorial, como também são capazes de usar esse processamento para raciocinar e fazer escolhas informadas sobre a sua própria existência fora do útero. É aí que encontramos o nosso maior dilema: se estas entidades não-humanas ainda são absolutamente necessárias para a sobrevivência do feto, todavia também são capazes de decidir sobre o seu próprio destino, é como se estivéssemos colocando na mão de estranhos à nossa espécie a continuidade do homem na Terra. A não ser que consideremos que estas incubadoras desfrutam de algum nível de humanidade, isso nos coloca numa posição muito difícil, entendem? Se for este o caso e elas puderem ser mais ou menos incluídas no nosso grupo taxonômico (com todos os desafios que essa inclusão significa), ao invés de solucionar o problema, o transformamos em um ainda mais complexo: Suponhamos que as incubadoras como todos os seres da nossa classificação possuem um corpo. Todos concordam que é inadmissível violar a integridade física de um ser para dar vida a outro, certo? E que é por isso que doações forçadas de sangue ou órgãos são proibidas, certo? Pois bem, então talvez o debate sobre a legalização do aborto devesse girar exclusivamente em torno das decisões desta incubadora, isso caso nós cheguemos a um consenso sobre elas dividirem o mesmo status humano com o resto de nós.

É um caso de difícil resolução… Porque apesar destas entidades agirem como gente e parecerem gente, ainda não tivemos nenhuma prova definitiva da sua humanidade. Talvez elas sejam só úteros caminhantes que aprenderam a imitar o comportamento de um homem depois de anos de observação. Deixo aí a incógnita a ser solucionada pelos cientistas do meu facebook. Nesse meio tempo, continuemos a decidir sobre a existência destes containers de bebê, tão misteriosos, tão difíceis de se conectar e de se solidarizar por serem seres tão abstratos, sem rosto e sem história. Talvez essa seja só mais uma teoria da conspiração… Não sei, me digam vocês.

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Daniela de Abreu

Doula, feminista e amante de trash horror.