Vestindo a esquerda de camisas negras:Como os fascistas colonizaram o Anti-imperialismo , Parte I

Por Dan Glazebrook

Historicamente, o fascismo sempre foi associado ao imperialismo: a grande ambição de Hitler, no fim das contas, era um Germanlebensraum na Rússia, purificada da presença dos eslavos e judeus, enquanto Mussolini buscava criar um novo império romano no norte da África. Não é de surpreender, dado que a ultra imperialista da Liga Pangermanica era, segundo o promotor dos julgamentos de Nuremberg , Franz Neumann , o “precursor  ideológico direto” dos nazistas, ainda que o movimento de Mussolini tenha nascido em esperanças territoriais frustradas logo depois da Primeira Guerra Mundial. Igualmente, o atual Partido Nacional britânico (BNP) tem suas raízes na League of Empire Loyalists, um grupo de pressão(?) para resistir à descolonização dentro do partido conservador, enquanto a maioria das formações fascistas na França, incluindo  a Frente Nacional emergiram da OAS, um grupo de oficiais comprometido em manter a Argélia no império francês. Nas palavras de Alexander Reid-Ross* “historicamente, o fascismo não é uma ruptura no imperialismo, mas um aprofundamento dele- talvez até uma força maior, um consequência do ímpeto de séculos de cruzadas coloniais.”

Contudo, o fascismo de hoje cada vez mais se proclama como orgulhosamente anti-imperialista, oposto às guerras e os pacotes de austeridade dos “globalistas” e aparentemente pronto  para defender ferrenhamente aquelas nações que sofrem a agressão militar e econômica do império, de Sìria e Líbia à Rússia e Grécia. O BNP se opôs às guerras no Iraque e no Afeganistão, a Frente Nacional mantém laços próximos com o inimigo de ocasião em Moscou e as redes neofascistas são a ponta de lança da “solidariedade” online contra a ação dos EUA na Síria, na Ucrânia e no Irã. O que está acontecendo?

Na realidade, o anti-imperialismo, assim como o nacionalismo, sempre teve tanto variantes reacionárias quanto progressistas. Em 1873, a Europa e a América estavam mergulhadas em uma “grande depressão” que durou quase um quarto de século. Isso desencadeou uma nova onda de conquista colonial , incluindo a chamada “Partilha da África”– mas também desencadeou uma onda de pessimismo quase apocalíptica entre pensadores europeus que viam o declínio econômico como o prenúncio do colapso da sociedade ocidental como um todo. Foi esse ambiente intelectual que gerou teóricos como Charles Henry Pearson e Herbert Spencer, que viam o imperialismo como uma força que, ao contrário de regenerar a Europa, a destruiria completamente. Não só a “missão civilizatória” seria fútil, eles argumentaram, pela genética e pelo atraso cultural dos não europeus; como ao colocar europeus em contato com povos supostamente inferiores, o imperialismo teria promovido a miscigenação que prejudicaria fatalmente a virilidade da raça superior. Em outras palavras, esses homens se opuseram ao imperialismo exatamente porque eram racistas: o debate sobre o imperialismo, em ambos os lados estava sendo disputado estritamente dentro dos parâmetros da supremacia branca.

John M. Hobson, em seu estudo monumental The Eurocentric Conception of World Politics 1760-2010( A Concepção Eurocêntrica da Política Mundial 1760-2010), constata que “em muitos textos racistas era assumido que os brancos estavam destinados a se expandir enquanto as raças inferiores deviam continuar em seus limites fixos. Mas na imaginação racista de Pearson é o ocidente branco que está fadado a continuar em sua posição fixa enquanto as raças amarelas estão destinadas a se expandir e triunfar sobre os brancos superiores”. Para Pearson, o imperialismo facilitou esse triunfo predatório das raças inferiores produzindo uma “prosperidade(que) desencadeou uma explosão demográfica não-branca”.

Um debate similar acontece hoje. Hoje, como antes, há uma divisão entre racistas liberais (“culturais”) do tipo de Fukuyama – que acreditam que a superioridade inata das instituições políticas do Ocidente significa que a cultura ocidental está destinada a prevalecer – e os medrosos racistas fascistas que acreditam que a demografia condena o Ocidente à degeneração e ao declínio. A diferença chave entre antes e agora é que os fascistas (‘anti-imperialistas’) de hoje acreditam que o imperialismo cria uma ameaça demográfica à raça branca, não por meio da suposta  prosperidade que ele traz, mas por devastar tanto as nações não-europeias que suas populações são forçadas a fugir para a Europa.

Ler alguns desses escritores hoje cria paralelos com os fascistas “anti-imperialistas” da nossa época, que escondem seu racismo com ataques legítimos contra a arrogância e a hipocrisia liberal. Spencer, por exemplo,  destaca a contradição daqueles que pregam a bondade e a compaixão cristã em casa, mas apoiam o extermínio de raças inferiores no exterior; enquanto Sumner critica a arrogância de “dizer para alguém que nós sabemos o que é bom para você melhor do que você mesmo e que nós vamos fazer isso”– uma clara violação da liberdade que os imperialistas dizem defender. Entretanto, mais que tudo isso, o crime definitivo do imperialismo foi sua transgressão da injunção de Spencer de “manter outras raças ao máximo de distância possível”. Era a deterioração cultural e biológica da sociedade branca  que era realmente assustadora. Nas palavras de Hobson, “os racistas defensivos, em geral, buscavam especificamente ‘defender o ocidente’ maximizando a distância entre brancos e não brancos bem como manter a vitalidade da raça branca e a supremacia da civilização ocidental no que resultou nas várias concepções de apartheid social da política mundial”.

Este modo de pensar também estava no coração da política a liga anti-imperialista americana, fundada como oposição à guerra extremamente brutal dos EUA contra as Filipinas na aurora do século vinte. J. Sakai escreveu que enquanto as atrocidades eram denunciadas em tom humanitário, “a liga era muito cuidadosa ao apontar que seu apoio à independência das Filipinas não significava que eles acreditavam em qualquer igualdade entre os povos colonizados e os europeus”. Além disso, sua oposição era explicitamente fundamentada, não na solidariedade internacionalista, mas no mesquinho interesse próprio burguês – especialmente em um medo que, ao impulsionar o poder e riqueza da classe capitalista monopolista , o imperialismo enfraqueceria sua própria posição na luta de classes. Sakai diz que “eles temiam que o poder econômico ganhado da exploração dessas novas colônias seria usado para sufocar a ‘democracia’ das massas colonizadoras” e, como seus equivalentes anti-imperialistas racistas na Europa, a Liga estava aterrorizada quanto os efeitos degenerativos da integração das Filipinas ao Império dos EUA. Conforme dito pelo presidente da Liga, congressista George Boutwell, “alguém acredita que podemos receber essa união  com milhões na Ásia que não tem laços de parentesco conosco? A pergunta frente ao país deveria ser: as classes trabalhadoras e produtivas da América devem ser sujeitas à concorrência direta e sem fim com trabalhadores mal pagos e seminus da Ásia?”

 Ainda mais perturbador é o pensamento que súditos coloniais podem realmente se tornar eleitores da pátria-mãe. Nas palavras de Camp Clark sobre os filipinos, “não interessa se são capazes de se governar, não são capazes de nos governar”. Além disso, argumenta David Starr Jordan,  a imigração filipina que  seguiria inevitavelmente a anexação, levaria ao caos social e ao colapso ”onde quer que raças degeneradas, dependentes ou estrangeiras estejam dentro de  nossas fronteiras elas não são parte dos Estados Unidos. Elas constituem um problema social: uma ameaça à paz e ao bem-estar”. Por que, ele perguntou, nós estamos “trazendo para o nosso corpo político milhões de pessoas ignorantes ou hostis a nossas leis, nossa linguagem, nossa religião e aos princípios básicos do nosso governo?” Os paralelos com o racismo de hoje são óbvios: esse tipo de ‘anti-imperialismo,’ anti-imigrante,tem uma longa história.

É válido notar o quão absolutamente impotente, hipócrita e delirante isso é. A Liga Anti-imperialista ficou calada durante a Guerra dos Bôeres (na qual as simpatias naturais de seus apoiadores frente aos colonos Bôeres iriam de encontro ao investimento extensivo dos EUA na indústria mineradora Britânica) e da supressão europeia violenta do Levante dos Boxers na China. E, claro, eles tiveram que praticar um contorcionismo ideológico maior para racionalizar seu apoio à colonização (interna) dos EUA. Carl Shurz considerava que o “velho” colonialismo (anexar as terras indígenas em primeiro lugar, assim como depois, a Califórnia, o Texas, a Flórida, o Alaska,e daí por diante) era justificável porque essas terras supostamente estavam praticamente despovoadas e, portanto, o ‘problema’ demográfico criado pela anexação de “milhões de trabalhadores semi-nus da Ásia” não surgiria. Isso não apenas mostra  centralidade das preocupações demográficas racistas nas preocupações da liga “anti-imperialista”, mas isso pode simplesmente ser lido como uma racionalização do genocídio.

Esse tipo particular de ‘anti-imperialismo’, então, não é oposto ao imperialismo em princípio, mas apenas a certos tipos de imperialismo, dependendo se eles servem para minar os interesses dos colonos europeus. A anexação de terras nativas ou mexicanas é um imperialismo “bom”, fornecendo terras para as massas de colonizadores  sem diluir sua cultura branca; a anexação do território filipino é imperialismo “ruim” porque ameaça a população colonizadora com miscigenação, competição, e degeneração político-cultural. De maneira similar, como nota Reid-Ross, os Fascistas de Mussolini “insistiam que  a conquista da Libia capacitaria a classe operária,  fortalecendo a nação e formas que o socialismo apenas poderia sonhar”.

Os fascistas ‘anti-imperialistas’ de hoje são iguais, julgam o imperialismo não por seu impacto em suas vítimas ameaçadas, mas de acordo com quem o está executando, e com quem está se beneficiando dele. Hoje, o ‘mau’ Imperialismo (‘pro-muçulmano’ /’pro-bancos’ /’instigado pelos judeus’) de Obama é contrastado com o ‘bom’ imperialismo (anti-muçulmanos, pro-EUA, alinhado com a Rússia) de Trump.

Isso demonstra que a base na qual a oposição ao imperialismo se baseia é crucial. Se o imperialismo está sendo enfrentado não por princípio, mas porque, por exemplo, ele de alguma forma “está de conluio com o Islã”, ou porque de alguma forma é prejudicial às necessidades da raça (branca), essa porta está aberta para apoiar um imperialismo que ataca os muçulmanos, ou que beneficia a raça. E em uma análise mais profunda, de fato, esse tipo e imperialismo hipotético é precisamente o imperialismo que existe na verdade. Muçulmanos, no fim das contas, constituem a grande maioria dos que são mortos em guerras imperialistas (incluindo aqueles mortos pelos salafistas apoiados indiretamente pelos EUA e pelos Britânicos); ao mesmo tempo que o povo europeu , de fato, se beneficia das guerras sustentadas pelos poderes do ocidente global.

Esse é o porque um ‘anti-imperialista’ de extrema direita como Trump, quando está no poder, pode aumentar a agressão imperialista em cada frente – incluindo contra seu suposto amigo, Putin – sem incitar nenhuma reavaliação de seus apoiadores fascistas.  Afinal, ele sempre odiou muçulmanos e buscou aumentar o poder dos EUA: se deu conta que o imperialismo, longe de ser um obstáculo, é, no fim das contas, um bom meio de buscar as duas coisas. Resumindo, permitir a infiltração fascista no anti-imperialismo não apenas libera que noções fascistas se desenvolvam e ganhem credibilidade na esquerda, como também neutraliza o anti imperialismo em si. Enquanto o ‘anti-imperialismo’ racista tem uma longa a história, contudo, sua variável moderna, emergiu de uma configuração específica do fascismo desenvolvida por homens como Julius Evola , Francis Parker Yockey e Jean-François Thiriart nas décadas seguintes à Segunda Guerra Mundial.

Julius Evola foi um dos principais ideólogos fascistas na Itália do entreguerras que, segundo Reid-Ross, “criticou a ditadura de Mussolini por não ser fascista o bastante”, ele foi creditado como a maior influência nas leis raciais antissemitas italianas de 1938.

O mentor de Evola foi Rene Guenon, um convertido francês ao sufismo, cujo fascismo “espiritual” elaborado com base em em uma leitura idiossincrática de textos árabes, budistas e hindus. Guenon culpava a civilização judaico-cristã pelo declínio da cultura guerreira heroica da Europa, e para Evola, só a redescoberta do ‘tradicionalismo’ pagão poderia libertar e regenerar uma europa moribunda. Logo depois da Segunda Guerra Mundial, Evola identificou os EUA como a porta-bandeira da degeneração cultural, e pediu ação direta contra a OTAN para liberar a Europa de influência arrogante e devastadora: uma variante do fascismo que “viria  a se tornar um ainfluencia fundamental para o emergente movimento fascista global” de acordo com Reid-Ross.Aqui podem ser vistas as sementes do fascismo “anti-imperialista’ defendido por gente como Alexander Dugin atualmente.

 Um dos mais importantes seguidores de Evola foi Francis Parker Yockey, um fascista dos EUA que possivelmente foi agente nazista durante a guerra. Como Guenon e Evola, , Yockey via a força (definida racialmente ) de um povo como produto da extensão de sua adesão a sua própria cultura ancestral antiga. E para Yockey, o ocidente em si não aderia mais a cultura genuinamente ocidental- que, argumentou, era atualmente mais prestigiada na União Soviética cujo autoritarismo (pré-iluminista) refletia bem mais as tradições europeias  que o liberalismo da Europa e da América do Norte. Como Evola, ele via que a ameaça mais perniciosa à cultura genuinamente ocidental emanar, não da URSS, mas dos EUA. conferindo um conteúdo concreto ao chamado de resistência à OTAN de Evola, ele fundou a Frente de Libertação Europeia(FLE) em 1948 com o objetivo explícito de derrotar a influência dos EUA na Europa. Demonstrando a maleabilidade ideológica sem fim  do fascismo, a formulação ‘Anti-EUA’ desenvolvida por Evola e Yockey era tanto um reconhecimento quanto uma adaptação à hegemonia política da esquerda e à popularidade dad União Soviética nos anos pós-guerra, e  uma clara tentativa dde ocupar o terreno dda esquerda anti imperialista, e foi muito bem sucedido: na opinião de Reid-Ross, “a mescla de Yockey de direita e esquerda criou o padrão para o resto do século”. Isso não é nenhum exagero: foi a FLE, no fim das contas, que cumpriu um papel chave na construção de redes entre a extrema direita russa e europeia nos anos 1990 que estão no coração do ressurgimento do fascismo “vermelho de camisa negra” de hoje.

Se os anos 1940 viram o desenvolvimento de um fascismo que mudou de uma posição anti-soviética para uma anti-EUA, os anos 1960 veriam o surgimento de uma linha que aparentemente inverte a atitude do fascismo quanto ao colonialismo. De forma reveladora, ela primeiramente emergiria das linhas mais virulentamente pró-coloniais do movimento.

A OAS era um organização secreta de oficiais franceses que se opunha violentamente à descolonização da Argélia. Formada durante a Guerra da Independencia Argelina entre 1954-1962, suas raízes estão na  Cagoule, uma organização dos anos 1930 que cometia atentados terroristas de falsa bandeira na França, e que culpava os comunistas com o objetivo de  arrebanhar as pessoas temerosas para aceitar o fascismo. A OAS foi formada por seus remanescentes, e acredita-se que forma responsáveis por cerca 2000 mortes durante seus dois anos de ação de 1961 a 1962. O belga Jean François Thiriart era um jovem apoiador da OAS, um ex-comunista que mudou de lado e ajudava os nazistas a  localizar judeus e combatentes da resistência durante a guerra. Thiriart providenciou abrigos para soldados da oas na sua volta da Argélia, e em 1960 criou seu equivalente belga, o Mouvement d’Action Civique , para resistir à libertação do Congo. “Entretanto,” escreve Reid-Ross, “quando a descolonização se espalhou, Thiriart aumentou suas aspirações de acentuar aspectos de esquerda do fascismo e se transformar em um personagem da política convencional”-o que o levou a defender os direitos dos trabalhadores e a descolonização. Mais uma vez, o fascismo demonstra sua habilidade de adaptar até suas crenças centrais para aumentar seu apelo.

Na verdade o apoio de Thiriart pela descolonização do terceiro mundo era superficial, e servia principalmente como uma justificativa retórica para ideias yockeyanas sobre ‘libertar’ a Europa tanto da influência ‘sionista’ quanto dos EUA, e da ‘infiltração’ não-europeia. Conforme escreve Reid-Ross, “a noção fascista de descolonização continuou distinta do movimento terceiro-mundista de descolonização… sua noção de ‘libertação europeia’ exigia a expulsão ou  senão a liquidação das populações julgadas como não-europeias. O forte odor de antissemitismo e racismo continuaram a emanar de sua literatura, que enfatiza a violência contra o estado , os ‘sionistas’ e a OTAN como meios para atingir o império espiritual da Europa… o apelo de Thiriart a esquerda veio da rejeição violenta da OTAN e da adoção da influência soviética ou mesmo maoísta que detinha apenas uma promessa de curto prazo de libertação do capital com um plano de genocídio a  longo prazo . Esse apoio à descolonização era, mais ou menos, um ardil desonesto para atender a possíveis recrutas de esquerda.”

De fato,  enquanto o “descolonialismo’ fascista claramente era uma tentativa de se vestir em uma roupagem de esquerda, ele se tornou muito mais que isso. Usar a linguagem da descolonização para descrever  a influência dos EUA(e do ‘sionismo’) na Europa foi e ainda é uma forma de nivelar os europeus dando a eles uma posição(não existente) de vítimas. Ao mesmo tempo, é uma tentativa transparente de legitimar o racismo, criando uma equivalência entre os movimentos de libertação do terceiro mundo e o nacionalismo branco. Como tal, é um exemplo perfeito do apelo do fascismo às profundas , porém reprimidas, necessidades psicológicas da pequena burguesia ocidental. Especificamente, os apelos fascistas à aspiração dos povos ocidentais de manterem ou restaurarem seus privilégios ameaçados de uma forma que se afine com sua consciência. A ideia de ‘descolonização’ faz isso perfeitamente. Antes, as teorias biológicas do racismo cumpriam esse papel, proendo uma  justificativa aliviadora da consciência para o privilégio branco; ms com a marginalização essas teorias no pós-guerra, uma nova racionalização era necessária. A retórica fascista sobre a colonização da Europa pelos EUA não apenas absolveu os europeus da responsabilidade por suas próprias políticas externas imperiais(agora todas projetadas nos EUA), como simultaneamente ofereceu um verniz de credibilidade “esquerdista” e ‘anti-imperialista’ aos ataques a imigrantes, que representam uma patrulha avançada(?) de uma” ‘invasão colonial’ conduzida pelos interesses dos EUA/sionistas prontos para destruir a Europa. Isso foi, então, o nascimento do fascismo ‘politicamente correto’ que apresenta tanto o encobrimento dos crimes europeus quanto o ódio contra imigrantes como parte de um projeto pseudo-esquerdista para ‘descolonizar’  a Europa.

Essa concepção tem uma enorme circulação hoje.  O argumento dos fascistas dos anos 1930 de que “o comunismo é um plano de Wall Street” sofreu mutação para “a imigração é um plano de Wall Street”. Hoje, ainda  que a figura do ‘judeu pobre’(comunista)tenha sido substituída pelo “muçulmano pobre’, por trás dos dois está o judeu rico puxando as cordinhas;em ambos casos, movimentos dos pobres são vistos como nada mais que planos judaicos para  destruir a Europa de dentro. O ódio aos pobres é transformado em uma parte aceitável e até necessária da luta contra os ricos, mais fácil de conciliar com as sensibilidades pequeno burguesas. Isso fica visível claramente na obsessão de muitas correntes fascistas com o suposto papel dos Rothschild e de George Soros em “inundar  a Europa de imigrantes”. Um exemplo particularmente fantástico é Gearoid O Colmain, um comentarista Frequente no RT   que se proclama Marxista-Leninista(mas claramente da variedade “Nacional-Bolchevique”) que em 2016 redigiu uma série de 11 partes intitulada “migração coercitivamente planejada:  a guerra do sionismo contra a Europa” que foi publicada por sites supostamente de esquerda como o Dissident Voice.o argumento básico de O Colmain é que os sionistas estão usando os imigrantes muçulmanos para facilitar o genocídio branco e enfraquecer a Europa. Na visão de O Colmain, o imigrante- ferramenta do judeu- é responsável não apenas pelo enfraquecimento, potencialmente fatal, pela diluição da cultura europeia , como por boa parte dos crimes e falhas do mundo ocidental.para O Colmain,os imigrantes são responsáveis pelas guerras e agressẽos dos ocidentais, por pressionarem os governos ocidentais a invadirem seus países natais- especificamente com expatriados iraquianos  sendo considerados responsáveis pelas invasão do Iraque pelos EUA-e eles até são considerados culpados pela continuação do capitalismo em si, por dividir a classe operária; ao ler O Colmain alguém poderia acreditar que os brancos a um milímetro de declarar uma revolução comunista até que aqueles muçulmanos irritantes chegaram.por fim, as simpatias de O Colmain e vários outros como ele ainda representam outra resposta a um desespero euro-marxista com o apego da classe operária ocidental ao capitalismo. Incapazes ou relutantes em reconhecer que a classe operária ocidental- o ‘povo escolhido’- é, de fato, beneficiada pelo capitalismo imperialista, são forçados a adotar toda forma de pressupostos idealistas para explicar sua suposta falha em agir  de acordo com seus próprios interesses de classe. Mas O Colmain é sofisticaddo emis pra o argumento da “falsa consciência”. Em vez disso ele tem outra resposta para a falha em fazer uma revolução no ocidente- a identidade atrasada do imigrante dividiu a classe trabalhadora. Dessa forma, ele ,seguindo os passos de Yockey e Thiriart, proporciona um verniz pseudo-esquerdista/progressista para a hostilidde anti-imigrante.ao nos opormos à imigração, nós não estamos, como parece, defendendo privilégios indefensáveis ou dando base à xenofobia- nós estamos combatendo valentemente a trama imperialista.

Mas talvez a figura mais importante na apropriação fascista de conceitos da esquerda a serviço e um fascismo mais “politicamente correto” é Alain de Benoist, como Thiriart, a carreira política de Benoist começou fazendo torcida descarada pelo  imperialismo chauvinista em livros como “a Coragem É Seu Lar” e “Rhodesia- Terra dos Leões Fiéis”. Mas como Thiriart, o recrudescimento da descolonização nos anos 1960 e os terremotos políticos que esta desencadeou no ocidente, levaram Benoist a mudar seu antigo apoio a grupos como a OAS e adotar uma retórica mais esquerdista e “anti-colonial”. Conforme escreve Reid-Ross, “ainda  que sejam classificadas originalmente como celebraçẽos pro-coloniais de antigas sociedades guerreiras europeias unidas pela honra e lealdade, o ideologia de Benoist foi mudada pelos eventos transformadores de paradigma de 1968 em uma nova formulação sincrética organizada sob a bandeira da “nouvelle Droite”(nova direita). Em 1969, ele criou o GRECE– grupo de Pesquisa e Estudos da civilização Europeia- e produziu uma análise “neo-gramsciana” das condições sociais baseada no antiliberalismo e no anti-marxismo sem necessariamente condenar o socialismo”. Tentando “ recuperar o que eles viam como ponto de união entre  direita e esquerda e que prefigura o fascismo do século XX” como Thiriart e Yockey, o GRECE procurou “ demonstrar que mesmo revolucionários de esquerda… podem ser utilizados de forma deslegitimar a democracia liberal”. O objetivo era enfrentar uma batalha de ideias de longo prazo(batizada de ‘metapolitica’) travada por meio desse think tank.

Benoist foi, de várias formas, uma progressão natural no caminho forjado por Yockey e Thiriart. Enquanto Yockey explorava as simpatias anti-EUA e pró-Soviéticas no período imediatamente após a (Segunda) Guerra Mundial,  e Thiriart se apropriou da retórico de descolonização dos anos 1960, Benoist adaptou os conceitos à moda da New Left para uma forma explicitamente fascista de política identitária. Seu movimento  “Nouvelle Droit” tirou diretamente das palavras de ordem da New Left sobre “respeito à diversidade” e “direito à diferença” a defesa de separação étnica racialmente purificada. Isto foi essencialmente uma reintrodução das teorias de apartheid global dos racistas do século XIX, a quem Benoist busca explicitamente reabilitar. Teoricamente em favor da igualdade das raças, Benoist defendeu algo que se tornou conhecido como “etnopluralismo”- a ideia e que cada etnia precisa se defender sua identidade étnica única resistindo à globalização, ao casamento inter-racial  e à imigração. Ao apresentar esses objetivos como um imperativo para todas as raças, Benoist buscou contrapor as alegações de supremacismo branco, e até reivindicou o apoio ao “Black Power”, “yellow Power” e o “Red Power”, junto com o white Power. Até sua hostilidade à imigração é apresentada como boa para o imigrante : “a verdade é que as pessoas precisam preservar e cultivar suas diferenças… a imigração merece condenação por ela dá um golpe na identidade da cultura anfitriã assim como na da cultura imigrante” .Alinhado com o fascismo clássico, a virilidade de um ‘povo’ é vista como sendo dependente de seu grau de homogeneidade, com impurezas e diluições deve sofrer resistência ou ser expurgadas.

A estratégia neo-gramsciana de ‘contra-hegemonia’ e ‘luta cultural’  se destina a usar conceitos da esquerda para deslegitimá-la enquanto, simultaneamente, providenciar os argumentos clássicos dos fascistas com uma nova admissibilidade pelo uso da terminologia politicamente correta. Dessa forma, Reid-Ross nota que, Benoist buscou implementar a  ordem e Hitler de criar um povo que estivesse ‘pronto’ para o fascismo. Sua moldura ideológica era ouro para os fascistas desesperados para limpar sua imagem e legitimar as noções fascistas de pureza racial, e foi adotada por neonazistas como Richard Spencer. Para seus adeptos, os anti-fascistas são “os verdadeiros fascistas’ cujo apoio à imigração se assemelha a uma forma de ‘genocídio branco’ facilitado por uma ‘invasão colonial’ da europa. Em outras palavras, Benoist efetivamente preparou o terreno para a ‘política identitária’ branca no coração do fascismo moderno.

Em seu livro “Mistaken Identity” Asad Haider define política identitária como “ a neutralização dos movimentos contra a opressão racial, ela é a ideologia que emergiu da apropriação do legado emancipatório  serviço do avanço das elites políticas e econômicas”.ainda que seja verdadeiro para a política de identidade em geral, a política de identidade branca empregada pelos fascistas força essa verdade simples ao extremo. U uso bem sucedido de Trump da identidade branca, por exemplo, neutralizou tão bem os trabalhadores brancos que ele foi capaz de lançar uma  das políticas mis anti-classe operária desde a Era Reagan , que teve como resultado uma transferência massiva de renda dos pobres(por meio de cortes sem precedentes nos programas de habitação pública e bem-estar social) para os ricos(na forma de 1,5 trilhão de dólares em  abatimento nos impostos). Esses batimentos, a CNN noticiou recentemente, que forma usos para financiar uma alta na recompra de ações( por volta de 178 bilhões), que tanto via aumentar artificialmente os preços das ações-disfarçando doença estrutural da economia-e tendo como resultado  a alta dos proventos dos acionistas que pode “superar 1 trilhão de dólares pela primeira vez”. Trump está facilitando a pilhagem da economia pelos bilionários antes q ela vá à falência, custas da classe trabalhadora; mas seus ataques a imigrantes, à China, à Coreia do Norte e etc, permitem que  desfile por ai como um defensor valente daqueles que estão sendo saqueados ninda que simultaneamente esteja criando uma sólida lista de bodes expiatórios para serem culpados quando o impacto dessas políticas começar a ser sentido. Ao mesmo tempo, Trump está empurrando ordens executivas para limitar os poderes dos já fracos sindicatos para resistir a essas medidas. Essa é a realidade da “política identitária” branca- gritaria racista como uma cortina de fumaça para ataques aos trabalhadores  encantados.

Esse artigo buscou, em sua análise do desenvolvimento das noções fascists de anti-imperialismo,  atrair atenção para os dois maiores perigos de permitir que os fascistas se infiltrem em nossos movimentos: que eles providenciam uma cortina de fumaça para a continuação dos ataques neoliberais à classe trabalhadora,  enquanto neutralizam o imperialismo em si. Mas também há um perigo maior: que militantes e esquerda que se aliem aos fascistas no ‘anti-imperialismo’ acabem oferecendo um palco- deem um verniz de credibilidade- a outras ideias do fascismo, especialmente o uso de  judeus e imigrantes como bodes expiatórios para problemas enraizados na atual crise do sistema mundial moderno

As várias crises em que esse sistema se encontra- ambiental, econômica e imperial-militar- tem sido construída a um longo tempo, e a classe dominante ocidental tem se preparado para elas. O objetivo dos governos ocidentais é confinar o impacto essas crises,  na meia do possível, exclusivamente aos povos do terceiro mundo. O imperialismo liberal, em vários aspectos( neoliberalismo, ‘intervenção humanitŕia’, etc) tem preparado o terreno faz algum tempo; tudo o que falta é e a legitimação da

tortura e do assassinato que qualquer um que tente fugir. É aqui que os fascistas entram. O capitalismo em crise sempre se utilizou do fascismo- seja de manera hesitante ou  de outra forma aberta ao debate- e continua a fazê-lo hoje. A pergunta para nós na esquerda é em que grau nós estamos nos permitindo ser usados pelos fascistas.

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