Vestindo a esquerda de camisas pretas: Alexander Dugin e a ascensão do fascismo “politicamente correto” Parte II

Por Dan Glazebrook.

Leia a parte I

Alexander Dugin é, possivelmente, o segundo fascista mais influente no mundo hoje, atrás apenas de Steve Bannon. Sua estação de TV atinge hoje 20 milhões de pessoas, e dezenas de “think tanks”, jornais e sites administrados por ele e seus empregados têm um alcance ainda maior. Você mesmo provavelmente já leu artigos que saíram originalmente de uma de suas fontes.

Sua estratégia é da “aliança vermelho-marrom” – uma tentativa de unificar a extrema-esquerda e extrema-direita sob a liderança hegemônica da última. Em face disso, muito de seu programa parece em uma primeira mirada superficialmente atrativo para esquerdistas – oposição à supremacia dos EUA; apoio a um “mundo multipolar”; e mesmo um respeito aparente para sociedade e tradições não-ocidentais e pré-coloniais. Na verdade, tais posições – por mais necessárias que elas possam vir a ser para um programa autenticamente de esquerda – não são nem boas nem más em si mesmas; antes, elas são instrumentos, ferramentos para a criação de um novo mundo. E o mundo que Dugin quer criar é composto por etno-estados racialmente puros, dominados por uma aristocracia euro-russa supremacista branca (o “Eixo Berlim-Moscou”) no qual a Ásia é subordinada à Rússia através do desmembramento da China. Esse não é um programa anti-imperialista. É um programa para uma disputa pelo controle da Europa e da Ásia: para um Terceiro Reich reconstituído.

Dugin representa uma vertente do fascismo conhecida como Nacional-bolchevismo, ou nazbol, que surgiu nos anos que seguiram a Revolução Bolchevique e a guerra civil na Rússia. Alguns dos remanescentes derrotados do Exército Branco passaram a acreditar que, se o Bolchevismo não podia ser derrotado pela força, então talvez suas correntes autoritárias poderiam ser desenvolvidas e gradualmente empurradas para um ultranacionalismo de direita. Essa foi a clássica estratégia de infiltração da esquerda e de destruição dela a partir de dentra, como uma implosão. Sob a liderança de Stalin, alguns dos Nacional-bolcheviques receberam permissão para retornar à URSS, e foram parcialmente reabilitados em um esforço de trazer credibilidade patriótica e nacionalista ao governo de Stálin; essencialmente, ambos os lados estavam usando uns aos outros para legitimar e expandir o apoio aos seus respectivos projetos.

Porém, a corrente permaneceu relativamente marginal até a era de Brejnev. Então, na década de 80, os Nacional-bolcheviques somaram forças com outras correntes ultranacionalistas para formar o “Pamyat“, uma associação anti-semita e monarquista que responsabilizava uma trama Judaico-Maçônica pela Revolução Russa, e por todos os outros problemas russos. Dugin se juntou ao conselho central do “Pamyat”, mas aparentemente ele achou eles muito “modernos” e buscou desenvolver uma forma mais mística e “tradicionalista” de fascismo. Após sua expulsão do “Pamyat” em 1989 depois de uma tentativa de dar um golpe interno no grupo para mudar a sua direção, Dugin embarcou em uma viagem pela Europa Ocidental, quando ele passou a ser influenciado pela Nova Direita de Alain de Benoist, além de desenvolver relações próximas figuras de proa como  Jean-François Thiriart, Robert Steuckers e o próprio Benoist. Essas figuras foram instrumentais para desenvolver uma estratégia de “passar um pano” e reabilitar o fascismo através da apropriação de conceitos e palavras de ordem da esquerda e mesmo de liberais (confiram, para tanto, a primeira parte de meu artigo), e foram de imensa influência sobre a própria trajetória de Dugin. Benoist defendia que se deixasse de lado a promoção aberta de um programa fascista para se focar no cultivo de um terreno intelectual no qual esse programa fosse novamente aceitável. Para esse fim ele criou um “think-tank”, GRECE (o Centro de Estudos para pesquisa e estudos da Civilização Européia, em francês), para travar uma guerra prolongada “ideológico-cultural” que ele chamou de metapolítica, baseada no estratégia originalmente defendida pelo comunista italiano Antonio Gramsci. Dugin logo passou a empregar estratégias similares, após tentativas abortadas de entrar diretamente na política (ele recebeu menos de 1% dos votos quando se candidatou à Duma russa em 1995, por exemplo). Seu primeiro jornal, “Elementy”, fundado em 1993, louvava os nazistas e os conservadores revolucionários que o precederam então, e publicou as primeiras traduções em russo do fascista esotérico do período entre-guerras, Julius Evola. Desde então, ele fundou e desenvolveu dezenas de jornais, “think-tanks”, editoriais e plataformas virtuais para difundir suas idéias, incluindo aí Katehon, Geopolitika, Arktos, Eurasia journal, Editions Avatar, Voxnr.com, Arctogaia, Fort-Russ, the Centre for Syncretic Studies, the Duran, New University, Vtorzhenie (“invasão”), Eurasianist Review, Evrazia.info, o jornal Russian Time, a Global Revolutionary Alliance, The Green Star, Nova Resistência, New Resistance/Open Revolt, o Centro para Estudos Conservadores da Faculdade de Sociologia da Universidade Estatal de Moscou, o Clube Conservador de São Petersburgo na Faculdade de Filosofia da Universidade Estatal de São Petersburgo e a editora Amphora. Um preocupante número desses veículos ganharam circulação entre a esquerda, seus artigos são compartilhados e postados de forma insuspeita nas mídias sociais por pessoas que jamais colocariam em circulação material produzido por supremacistas brancos mais ostensivos como a Ku Klux Klan.

Muito de seu trabalho é financiado pelo bilionário russo Konstantin Malofeev, e várias plataformas cobrem uma ampla base a quem ele apela e seu público alvo. Alguns sites são mais tradicionalmente direitistas, enquanto outros se apropriam de uma linguagem e imagética mais anarquista e obreirista. A Nova Resistência, originalmente baseada nos Estados Unidos, é um caso desses últimos. A Nova Resistência foi fundada por James Porazzo, previamente líder do American Front, organização mais abertamente supremacista branca (baseado no inglês National Front), que já descreveu os judeus como “um povo sujo e mau, que tornaria o mundo melhor se deixasse de existir”,  e é claramente parte da rede global de Dugin, frequentemente republicando artigos de Dugin, e com ligações com sites da sua rede, sendo promovidos de forma destacada no Centro para Estudos Sincréticos (“Centre for Syncretic Studies ” no original) de Dugin e em seus livros. A Nova Resistência publica frases que soam tipicamente de esquerda como “por muito tempo vimos a lógica de soma zero, de cada um por si, ser internalizada pela classe trabalhadora” e “trabalhadores de todas as nações são cinicamente jogados uns contra os outros pelas classses dominantes, forçados a conduzir uma guerra militar e econômica contrária aos nossos interesses de classe” e mesmo divulga “stickers” de lutadores comunistas pela liberdade como Leila Khaled para que seus apoiadores baixem. Seu programa de 11 pontos é a clássica mistura fascista de desejos socialistas tradicionais, uma nostalgia de tribalismo “de-volta-para-o-campo” e assobios à direita com temas como superpopulação e direito à propriedade de armas, e é apenas quando se vai mais fundo no manifesto que as demandas por pureza étnica e segregação se tornam mais aparentes. Em certo momento, a compreensão de Gramsci de “intelectuais orgânicos”, enraizados na classe trabalhadora, é distorcida em apoio a uma “nova aristocracia”.

Alexander Reid-Ross explica como esses sites duginistas e “think-tanks” então ampliam sua influência através do resto da internet: “Os artigos que contém o pensamento de Dugin são lidos por jornalistas e editores de outros sites como Fort-Russ, que afirma receber milhões de visualizações por mês. RussiaToday e Sputnik selecionam histórias e escritores de sites como Fort-Russ e Katehon, elevando a divulgação do Kremlin a mais e mais usuários. Então, eles trazem jornalistas de esquerda da países do Atlântico Norte para tornar essa divulgação mais atraente para audiências maiores no Ocidente”. O próprio site do Fort-Russ confirma essa estratégia: “Com 3 milhões de leitores por mês, nós sempre divulgamos ‘verdades inconvenientes’ que a mídia ‘mainstream’ bancada pelo Kremlin como RussiaToday e Sputnik eram incapazes de divulgar. Nós damos a história crua para os leitores antes da RussiaToday e do Sputnik acharem o ângulo correto para divulgá-la. Como resultado, muitos de nossos artigos e matérias apareceram nesses meios posteriormente”. Em dezembro de 2013, Dugin compilou uma lista de centenas de políticos e intelectuais que ele buscou influenciar através do envolvimento com o RussiaToday, intitulado “Países e pessoas nos quais existe espaço para criar um clube de elite ou um grupo de influência informacional através do RussiaToday”. A lista incluía direitistas como Viktor Orban e Benoist, mas também esquerdistas como o líder do Syriza, Alexis Tsipras.

Ao mesmo tempo em que seguia essa estratégia “metapolítica”, Dugin exerceu algum tipo de papel no desenvolvimento e influência em quase todo grupo de extrema-direita que existe hoje. Após fundar o Partido Nacional-Bolchevique em 1993, ele escreveu o programa do pessimamente batizado e profundamente anti-Judeu Partido Comunista da Federação Russa, e serviu como conselheiro para o também mal nomeado e fascistóide Partido Democrata Liberal de Vladimir Zhirinovsky. Na sequência ele foi conselheiro do Presidente da Duma e estabeleceu o Partido da Eurásia (2002) e o Movimento da Juventude Eurasiana (2005), sendo no meio tempo brevemente também um líder do partido ostensivamente fascista Rodina. Em 2008, ele obteve o cargo de professor na prestigiosa Universidade Estatal de Moscou, e seu livro “Fundamentos da Geopolítica” é aparentemente uma leitura obrigatória nas academias militares russas. Ele também é próximo da extrema-direita dos EUA, com ligações com o líder da Ku Klux Klan David Duke. Uma de suas discípulas, Nina Kouprianova, é casada com o líder fascista dos EUA Richard Spencer e ele e Alex Jones aparecem cada um nos programas de TV do outro. Mas ele também desenvolveu relações com grupos de esquerda como o Syriza, cujo antigo ministro do Exterior Nikos Kotzias o convidou para dar uma palestra sobre o eurasianismo na Universidade de Pireus em 2013 de acordo com o Financial Times. Dugin parece mesmo ter um papel como “enviado oficioso” do governo russo, tendo sido alegado que ele auxiliou na reaproximação entre Rússia e Turquia após esta ter abatido um caça russo em 2015.

A visão de Dugin se resume essencialmente a uma combinação de “etnopluralismo” e do que ele hipocritamente chama de Neo-eurasianismo. Ambas idéias se prestam muito bem à construção de uma “aliança vermelho-marrom” liderada pelos fascistas, já ambas possuem elementos que são interessantes superficialmente à esquerda, ainda que na verdade forneçam um verniz teórico para o genocídio e a guerra imperial.

Na esteira de Benoist, o etnopluralismo pretende se basear no respeito à cultura única de todos os povos, clamando pelo fim da mão de ferro arrogante do universalismo imperial da modernidade liberal. Fascistas politicamente corretos nos moldes de Dugin e Benoist sempre afirmam apoiar o “Poder Negro”, o “Poder Indígena” e o de todos os outros povos, junto com o “Poder Branco”: África para os africanos; e a Europa para os europeus. O corolário de ambos, é claro, é o de que não-europeus deveriam sair logo, e a imigração é apresentada como uma ameaça ou mesmo uma trama contra a cultura européia tradicional e essencializada que os duginistas apóiam. De fato, um objetivo chave dos duginistas parece ser a transformação do movimento anti-guerra em um movimento anti-refugiados, retratando os refugiados como uma arma empregada por financistas judaicos como George Soros para diluir e enfraquecer a cultura européia.

Apesar disso, essa hostilidade em relação aos imigrantes como uma influência impura e degenerada na prisca tradição cultural européia é acompanhada com o elogio em direção a outras culturas tradicionais, em especial o Islã. Dugin teve alguns sucessos decisivos na cooptação de muçulmanos para a sua causa, tendo seu colaborador próximo e antigo membro do Pamyat Geydar Dzhemal estabelecido seu próprio “think-tank” fascista, o  Clube Florian Geyer. O livro de Dugin de 2014, “A missão eurasiana”, também afirma que o apóia o sheikh Talgat Tadzhuddin, Mufti chefe do Diretório Espiritual Central Muçulmano. Enquanto a direita dura “mainstream” passou a adotar após o 11 de Setembro uma posição superficialmente “pró-judaica” (ou ao menos pró-israelense) de unidade contra o Islam, os duginistas parecem querer voltar a extrema-direita à tradição pré-11 de Setembro de cortejar  os muçulmanos de direita em um programa comum anti-semita. O etnopluralismo é, por definição, anti-semita, já que o que Dugin chama de “judeus subversivos e destrutivos sem uma nacionalidade” são, em razão de sua própria existência, uma ameaça à sua concepção de etno-estados racialmente purificados e culturalmente homogêneos. Isso não elimina, é claro, qualquer tipo de apoio a Israel como uma base para um estado desse mesmo tipo, e a Arctogaia de Dugin tem de fato cultivado relações com grupos sionistas ultranacionalistas cujas concepções de pureza cultural ecoam as do russo.

Aquilo que Dugin chama de Neoeurasianismo, por outro lado, se fundamenta na defesa de uma grande coalizão contra o “atlantismo” e o poder dos EUA feita pelo fascista estadunidense Francis Parker Yockey. De novo, em uma primeira passada de olho isso parece interessante a genuíno anti-imperialistas; afinal de contas, o que poderia ser mais anti-imperialista que uma política para isolar e enfraquecer o poder imperial central do mundo? Olhando mais de perto, porém, o eurasianismo de Dugin se resume em uma tentativa crua de formar um bloco de poder branco liderado pela Rússia que busca destruir a China e em preparação para uma grande guerra mundial inter-imperialista. A visão maniqueísta e ocultista histórica que possui Dugin apresenta a História como uma eterna luta entre um império marítimo “degenerado”, um “Leviatã” representado hoje pelo atlantismo dos EUA e do Reino Unido em especial, e um “império terrestre” liderado pela Rússia – um “Behemoth” que sustenta valores eslavos tradicionais e a cultura européia, em defesa contra as hordas muçulmanas e chinesas liberadas pela globalização atlantista. Ainda que Dugin advogue em “Fundamentos da Geopolítica” um foco propagandístico nos EUA (“o principal bode expiatório será precisamente os EUA”, como ele mesmo diz sucintamente), ele vê como o real inimigo a China, a qual, ele escreve, “precisa, no maior grau possível, ser desmantelada”. Portanto, apesar de sua aparente hostilidade aos EUA, o duginismo possui como objetivo imediato precisamente a mesma meta do imperialismo dos EUA – a destruição da China.

De fato, neoeurasianismo é um nome eufemistíco e errôneo para esse projeto. Os eurasianistas originais do período entre-guerras – os quais, como os nacional-bolcheviques, surgiram dos remanescentes do Exército Branco no exílio – se inspiravam no Império Mongol, e buscavam de algum modo recriá-lo. Porém, o projeto de Dugin é essencialmente o de reconstituição dos territórios do Terceiro Reich (incluindo as partes da Rússia que ele nunca conquistou) sob tutelagem comum germânico-russa (o “Eixo Moscou-Berlim” como ele o chama), tal como Edmund Griffiths demonstrou. Nisso, ele está próximo de seu mentor Thiriart de um “bloco de poder branco” de Lisboa a Vladivostok (e excluindo todo o Sudoeste e Sudeste asiático). A real inspiração que Dugin parece ter recebido dos eurasianos clássicos foi sua estratégia de infiltração e colonização da esquerda ao invés de confrontação direta com ela.

Tal qual Hitler, o modelo para o futuro “Império eurasiano” de Dugin parece ser o Império Britânico. Após a Primeira Guerra de Independência Indiana de 1857 – o maior levante anti-colonial do século XIX, o qual demorou três anos para ser contido pelos britânicos – a Inglaterra passou a se focar no cultivo de lideranças “tradicionais” (e preferencialmente sectárias) para a terceirização do trabalho sujo do Império, com as família governantes de muitas regiões da península arábica sendo ainda hoje um subproduto desse período. No mesmo estilo, a visão de Dugin para uma Eurásia parece ser uma vasta coleção de bantustões culturais nacionalistas controlados por gangsters abençoados pela Rússia (ou “representantes da hierarquia tradicional, patriarcal natural”, para usar as formulações de Dugin). Ao mesmo tempo, os elogios de Dugin ao Islam têm como corolário sua defesa de uma “aliança continental Russo-islâmica” – com o Irã em particular – baseada no “caráter tradicional da civilização russa e islâmica”. Nada dessas palavras de flerte, deve ser sublinhado, impediu Dugin de aplaudir um presidente dos EUA que fez do estrangulamento econômico do Irã um traço central de sua política externa, tal como não impediu Putin de colaboração com o estrangulamento de seu suposto “aliado” tanto pela permissão tácita aos ataques israelenses às forças iranianas na Síria quanto pela extração extra de petróleo para permitir o bloqueio de Trump ao Irã. Longe disso; de fato, tais ações apenas aumentam a dependência iraniana da Rússia, ilustrando a natureza chauvinista dessa “aliança”, tanto na forma com que aparece na filosofia do Dugin e em sua manifestação de “realpolitik” hoje.

Todavia, onde o “Neoeurasianismo” realmente revela sua  compatibilidade com seu suposto inimigo atlântico é na sua atitude para com a China. O desmembramento da China – identificado em “Fundamentos da Geopolítica” como o principal rival local da Rússia – deveria começar de acordo com as sugestões de Dugin pela anexação russia do Tibet, do Xinjiang e da Manchuria, além da Mongólia, para que se conformasse um “cinturão de segurança”. O cultivo “metapolítico” da hostilidade para com o suposto rival da Rússia é sutil mas claramente está ocorrendo, como um breve passar de olhos pelo site Katehon revela. Um artigo, cujo título sugestivo é “A China marcha em direção à guerra: quem será a primeira vítima?” (“China on the Warpath. Who will be the first victim?”), diz aos seus leitores que “o exército chinês está se preparando para a guerra…rompendo o delicado equilíbrio que se desenvolveu no mundo após o fim da Segunda Guerra Mundial”, além de “Um a um ela [a China] vai tomando territórios da antiga URSS – Rússia, Quirguistão, Cazaquistão”. Suas “aspirações agressivas” são, aparentemente, também reveladas pelo seu papel Mar Chinês do Sul, embora o artigo remova da equação da situação a estratégia de estrangulamento cada vez mais beligerante dos EUA e as tentativas deste de obter controle sobre “pontos de estrangulamento” navais ccruciais na região, as quais são o contexto óbvio e a verdadeira causa das ações defensivas da China. Assim, esse artigo poderia ser facilmente encontrado é uma revista da linha dura neocon dos EUA, se houvesse pouquíssima edição gramatical.  Outro artigo – “Existe alguma alternativa à Nova Rota da Seda Chinesa” (“Is there an alternative to the Chinese New Silk Road?”) – buscar desacreditar a Iniciativa do Cinturão e da Rota, apresentando-a como contrárias aos interesses dos países parceiros e abertamente saliva quanto às oportunidades abertas à Rússia pela guerra econômica de Trump contra a China. Nesse sentido, a geopolítica de Dugin é pouco distinta daquela de Kissinger, Brzezinski, Clinton ou Trump: o cultivo da divisão entre Rússia e China. A única diferença é qual dos dois eles elogiam e qual dos dois eles atacam em momentos particulares.

Portanto, o neo-eurasianismo está longe de ser a iniciativa anti-ocidental, e mesmo Pró-Sul, com que ele é por vezes falsamente confundido. Ele é o oposto polar do “tricontinentalismo” dos anos 60 e 70, buscando antes unificar-se com uma fração do imperialismo ocidental (a Europa) ao mesmo tempo em que concretiza os objetivos geopolíticos da outra (a destruição da China). Tudo isso pode muito bem acabar saindo pela culatra da própria Rússia. De fato, as próprias milícias fascistas que hoje estão conduzindo uma guerra contra os russos étnicos da região do Donbass eram, até pouco tempo atrás, parte das redes etnopluralistas de Dugin.

Dada a falta de base social para um socialismo genuíno (isso é, anti-imperialista e internacionalista) no Ocidente, esquerdistas podem ser utilizados pelo fascismo sem medo. Ao ajudar a deslegitimar a democracia liberal, os esquerdistas podem sem perceber e acidentalmente ajudar a gerar uma base para o fascismo, o qual é, eu acredito, o “lar natural” da massas ocidentais em épocas de crise. Dugin é nesse sentido algo semelhante a grupos trotskistas como o britânico Socialist Worker’s Party (SWP) – estimulando a fúria diante das injustiças do capitalismo e do imperialismo, mas utilizando-a para na verdade avançar no sentido de objetivos imperialista, enquanto nunca questiona, e de fato perpetua, atitudes coloniais. No caso do SWP, a despeito de toda sua verborragia revolucionária, quando a situação aperta, eles apoiam o Brexit, fazem campanha para partidos imperialistas na campanha eleitoral e se opõe a todas as revoluções bem-sucedidas do Terceiro Mundo. Com Dugin, por sua vez, temos um programa que se resume a um ataque geopolítico ao maior rival dos EUA combinado com a utilização dos imigrantes como bode expiatório para a depredação cultural causada pelo capitalismo. Duginismo é uma mistura fascista clássica de uma retórica “anti-elite”, demandas por purificação étnicas e uma agenda de política externa imperial, tudo isso embrulhado em acenos politicamente corretos à diversidade cultural e uma verborragia chata anti-ocidental. Seu perigo particular reside nas veredas profundas que ele abriu nos círculos de esquerda e anti-imperialistas.

Veja também:

https://democracyandclasstruggle.blogspot.com/2019/03/the-browning-of-left-how-fascists.html

https://democracyandclasstruggle.blogspot.com/2014/04/aleksandr-dugin-radical-conservatism.html

http://democracyandclasstruggle.blogspot.com/2015/03/maoism-is-too-modern-for-me-says.html


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