Vigilância de massas e “totalitarismo online”

 

Por Chris Spannos, originalmente publicado na Roar Magazine

 

De pé do lado de fora  da Topografia do Terror em Berlim, olhando esse exterior cinza neutro, é difícil compreender a magnitude dos horrores nazistas que emanam desse lugar. O entra e sai de ônibus de turistas indo e vindo do museu para visitar os restos grafitados do Muro de Berlim, o Checkpoint Charlie e o edificio histórico, porém modernizado  do Bundestag. Esses lugares, entretanto , sustentaram instituições que foram centrais para os sistemas nazistas de perseguição e terror.

 

De 1933 até 1945, antes de serem destruídos , os edifícios hospedaram a Polícia Secreta do Estado(Gestapo), a chefia da SS(esquadrão e proteção do partido Nazista) e o escritório principal de segurança do Reich. Essas instituições  usaram métodos frios e brutais para servir a fins brutais e frios. Depois da Segunda Guerra a polícia secreta do Partido comunista na Alemanha Oriental vigiou a correspondência as pessoas, as ligaçẽos telefônicas e os estrangeiros. Com 50000 profissionais e informantes civis- e estimativas se  tão altas quanto 2 milhões(incluirmos os informantes ocasionais)- para monitorar uma população de 17 milhões, a Stasi foi descrita como uma das organizações de vigilância mais intrusivas da história.

 

Os regimes totalitários na Alemanha  fizeram o uso generalizado da vigilância em massa para dominar a liberdade e  executar crimes horríveis. Não é surpresa que hoje a Alemanha seja  o principal país  no mundo para privacidade de dados e leis protetivas, que Berlim tenha desenvolvido para se tornar uma das principais capitais mundiais para hackers e defensores da privacidade, que uma das primeiras plataformas  computacionais peer-to-peer a garantir privacidade do usuário contra vigilância eletrônica, a Enigma,  seja batizada com o nome da ferramenta que os nazistas usaram para transmitir mensagens codificadas. Ainda, ironicamente, o poder dos sistemas de  vigilância de massa hoje – como o da NSA denunciado por  Edward Snowden- excedem de longe o que os regimes totalitários anteriores imaginaram. A vigilância  se espalhou como uma pandemia.

Bisbilhotando cidadãos comuns

Vigilância em massa, como explica a Privacy International ,é  a submissão de uma população ou  um componente significativo de um grupo a monitoramento indiscriminado. “Qualquer sistema que gera e coleta dados de indivíduos sem  a tentativa de limitar o conjunto de dados a um grupo bem definido de indivíduos é vigilância em massa”, ela escreve.

 

A NSA, acima de tudo, aplicou técnicas notórias de vigilância em massa e guerra cibernética. Graças a Snowden nós sabemos sobre a aliança sigilosa dos “Cinco Olhos”, um acordo multilateral de vigilância entre Estados Unidos, Canadá, Austrália e Nova Zelândia que permite que cada estado participante terceirize a tarefa de  espionar seus cidadãos para os outros estados participantes. Mais recentemente, em Agosto de 2016, uma entidade conhecida como “Shadow Brokers” revelou as controversas armas de guerra cibernética da NSA que o ex-membro da equipe descreveu como as”chaves para o reino”. Por meio de malwares e da exploração falhas de segurança em sistemas de segurança corporativa amplamente usados, como os da Cisco, sem nem informar a companhia sobre os problemas na segurança.

 

As metáforas amplamente usadas para compreender a vigilância em massa de hoje- assim como referências à Alemanha nazista, a Stasi e o Big Brother de George Orwell– correm o risco de distrair a atenção dos horrores e crimes dos regimes totalitários do passado. Mas como medidas contra os abusos do presente, como o fato e que a NSA pode coletar  os dados de 5 bilhões de celulares por dia, essas comparações podem oferecer um insight importante. A OpenDataCity , com sede na Alemanha,  comparou o volume de dados que a Stasi armazenou à capacidade da NSA de armazenar dados. Eles chegaram à conclusão que os arquivos da Stasi encheriam 48 arquivos, enquanto apenas um servidor da NSA encheria 42 trilhões de arquivos. A organização conclui que a NSA pode capturar 1 bilhão de vez mais dados que a Stasi poderia.

 

Entretanto, não é apenas a NSA que bisbilhota a vida dos cidadãos comuns. Em outubro de 2016 , o tribunal de investigação do  Reino Unido ordenou que os serviços de segurança do país(CGHQ, MI5 e MI6) coletaram ilegalmente uma quantidade enorme de dados de comunicação, “ vigiando o uso individual de telefone e  internet e outras informações pessoais confidenciais, sem  as garantias  adequadas ou supervisão por 17 anos”. Os serviços de segurança não precisam mais se preocupar com a legalidade de suas ações, entretanto, no mês seguinte a Lei de poderes investigativos–  também conhecida como “estatuto bisbilhoteiro”- foi aprovada,  legalizando a vigilância em massa no país.

 

Controlando conjunturas decisivas

 

Hoje governos e corporações controlam conjunturas críticas da web, incluindo mapeamento de domínios, cabos submarinos, software e hardware, códigos de programação, e centros de dados. Isso significa que a internet atualmente é altamente centralizada, vigiada, estudada , manipulada, e sujeita  a   sérias brechas. Muitas pessoas  estão preocupados porque a emergente Internet das Coisas- incluindo “smartphones”, “cidades inteligentes” e tecnologias usáveis- logo haverá uma explosão de dados pessoais coletados, do leite vencido até sua pressão sanguínea, e mais, isso abre as portas para uma multiplicidade de problemas éticos.

 

A coleta e centralização de dados pessoais já permitiu experimentos sociais extraordinários. O departamento de defesa dos EUA estudou extensamente como influenciar usuários do Facebook, Twitter, Pinterest e Kickstarter a compreender conexões sociais e  como as mensagens se espalham pelas redes. Essas mensagens incluíram notícias sobre o Occupy Wall Street e os levantes da  “Primavera Árabe”. E separadamente,  separadamente, o Facebook procurou entender de forma controversa como influenciar as emoções do usuário manipulando seu Feed de notícias.

 

A World Wide Web tem sistemas de poder que se entrincheiraram por permitirem que  eles influenciem  redes estratégica e veladamente e “incentivem” populações em uma direção ou outra. Isso é o que Luciano Floridi, professor de Ética da informação, descreve como a novo ”poder cinzento”. Pode cinzento não é o poder sociopolítico ou militar comum, Floridi explica que não é o poder de influenciar diretamente os outros, e sim o poder de influenciar aqueles que influenciam os poderosos.

 

Nos séculos XIX e XX, os industriais em ternos cinza eram aqueles que detinham o poder cinzento, argumenta Floridi. Hoje, aqueles que controlam redes sociais, mecanismos de pesquisa e indústrias relacionadas  a tecnologias digitais detém o poder cinzento. O Google Transparency Project,  por exemplo, identificou 258 exemplos de  atividades de “porta giratória” entre o Google e o Governo Dos EUA, o congresso e campanhas políticas nacionais durante o mandato de 8 anos do presidente Obama. Essas portas giratórias se movem para oficiais da Casa Branca, ex-membros dos órgãos de segurança nacional, de inteligência  e oficiais do Pentágono que saíram do governo para trabalhar em posições chave no Google e executivos da Google que chegaram aos  mais altos escalões de poder na Casa Branca e no departamento de defesa

 

O perigoso poder da vigilância em massa não reside assim, apenas nos regimes totalitários do passado. As formas modernas de vigilância são usadas igualmente por governos  quanto por companhias, às vezes trabalhando juntos de forma onipresente para explorar, manipular e influenciar a população em geral. Não importa quais as motivações por trás desses sistemas invasivos, é claro que eles sempre são perigoso, especialmente se eles caem nas mãos erradas.

 

As mãos erradas

A ameaça da ascensão de uma extrema direita supremacista branca nos EUA era uma possibilidade a muito tempo. Mas poucos podiam imaginar que o empresário bilionário Donald Trump  venceria  a eleição presidencial dos EUA de verdade. Só essa possibilidade já era difícil de aceitar. Ele não tinha nenhuma experiência anterior em cargo público. Mas a ficha da realidade já começa a cair. Enquanto  “Comandante em Chefe” dos EUA esse homem perigoso terá   em suas mãos cadeias de poder oferecidas pela  administração anterior de Barack Obama. Isso inclui os poder de vigilância em massa e armas de destruição em massa.

 

No artigo que escreveu para a Time Magazine um dia depois da vitória desconcertante de Trump,o militante pelos direitos digitais e transgênero, Evan Greer, observou que Obama tinha “ questão de semanas para fazer a única coisa que poderia prevenir os Estados Unidos de guinarem ao fascismo: desclassificar e desmantelar quanto do aparelho  inimputável, secreto de vigilância massiva que ele puder- antes que Trump seja o operador deles.” em 10 de Novembro, Edward Snowden Tweetou:” os poderes de um governo são herdados pelo governo seguinte. Reformá-los agora é a maior responsabilidade desse presidente, que foi atrasada por muito tempo.” Snowden continuou:” sendo claro, ‘esse presidente’ que dizer esse presidente, agora. Não o próximo, ainda dá tempo de agir.” o editor insurgente do Wikileaks tweetou um alerta para aqueles nos EUA que “deixaram Obama legalizar” o assassinato de qualquer um,  espionar qualquer um e processar editores e fontes da mesma forma. “ Trump poderá fazer tudo isso em 69 dias,” eles avisaram.

 

Durante sua campanha, Trump disparou uma ladainha de mísseis verbais que poderiam ter afundado sua própria candidatura. Ecoando os piores períodos da história dos EUA, como o programa COINTELPRO do FBI que executou ações  secretas, violentas  e ilegais contra grupos locais. Trump pediu a vigilância de mesquitas, sugeriu ele deveria fazer o procurador geral investigar o movimento Black Lives Matter, e ameaçou jornalistas e a liberdade de imprensa.  Essas ameaças de Trump, por mais preocupantes que sejam, não são novas, desde os ataques terroristas de 2011, a polícia de Nova York tem vigiado sistematicamente os muçulmanos. O FBI vigiou o movimento Black Lives Matter em Baltimore logo depois da morte de Freddie Gray em Abril passado. E durante seu mandato de 8 anos, Obama perseguiu mais   delatores pela  arcaica Lei de Espionagem de 1917 que todos os presidentes anteriores juntos..

 

Trump prometeu trazer de volta o afogamento como método de interrogatório e até aplicar técnicas “impensáveis” de tortura. Ele expressou seu desejo  de encher a prisão do Campo de Detenção  da Baía de Guantánamo, em Cuba, com mais prisioneiros. Ele exigiu que a Apple ajudasse o FBI liberando os dados do iPhone pertencente ao atirador de San Bernardino. Ele  irá controlar o programa de drones de Obama. A lista de prioridades vis e sua possibilidade de abrangência vai do  obscuro e macabro ao obscuro e cômico. Até mesmo  as expressões do  Doutor Fantástico incutem uma sobriedade macabra na situação. Dez Ex-oficiais de lançamento de mísseis nucleares expressaram preocupação sobre o acesso de Trump a armas nucleares. Esses oficiais que são responsáveis por executar as ordens de lançamento de mísseis nucleares, assinaram uma carta avisando que Trump não deveria colocar “seu dedo no botão”  por causa de seu temperamento volátil.

 

Existem boas razões para estar profundamente preocupado quanto ao que Trump vai fazer com sua recém adquirida autoridade presidencial.ele, afinal, jurou se vingar de seus adversários,  se ele  disse isso seriamente ou se ele estava jogando com o ódio de sua base eleitoral xenofóbica para conseguir mais votos é impossível saber. Mas o que nós sabemos é que a eleição de Trump nos levou a um território perigoso e não mapeado.

 

Primeiro eles vieram atrás das hashtags

 

Antes da eleição presidencial dos EUA, em abril de 2016, membros de mais de 90 nações nativas-americanas convergiram  a Standing Rock em Dakota do Norte para proteger locais sagrados tribais e seu suprimento de água. Eles se reuniram para protestar contra a construção do oleoduto de Dakota. Em novembro, houveram  denúncias e monitoramento direto, incluindo  vigilância por terra e ar. Os manifestantes denunciaram  helicópteros dando voos rasantes sobre os acampamentos, às vezes com holofotes acesos no meio da noite. Militantes ficaram preocupados com invasões de privacidade incluindo conversas sendo gravadas mesmo quando eles não tinham certeza  de que estavam sendo monitorados.

 

A preocupação quanto a constante vigilância em Standing Rock continuou  a atingir manifestantes no fim de Outubro, quando um post do Facebook  contou que o xerife do município de Morton estava usando os check-ins do Facebook para perseguir pessoas no acampamento da manifestação. Uma campanha começou na rede social convidando as pessoas para fazer “check-in” em Standing Rock e compartilhar esse pedido em suas redes, para sobrecarregar e confundir a polícia. Depois de apenas 24 horas   da convocação mais de um milhão de pessoas fez check-in na reserva de Standing Rock. alguns estavam preocupados que a polícia usasse os dados dos check-ins para rastrear as redes de pessoas simpáticas aos grupos de manifestantes.

 

Uma pesquisa recente confirma que o uso de um software de vigilância de mídias sociais para coletar as informações pessoais que publicamos  nas redes sociais está se agravando. Em Setembro e 2016,  a American Civil Liberties Union(ACLU) recebeu milhares de documentos públicos revelando que as agências de segurança no estado a Califórnia” estavam  adquirindo softwares de espionagem de mídias sociais que  rastrearia militantes para vigilância digital”. O software monitorava “ameaças à segurança pública” rastreando hashtags como#BlackLivesMatter, #DontShoot, #PoliceBrutality(respectivamente “vidas negras importam”, “não atire” e “brutalidade policial”) e mais.

 

A ACLU relata que, das 63 agências de segurança pública no estado, 20 adquiriram ferramentas poderosas de vigilância de redes como MediaSonar, X1 Social Discovery e Geofeedia.  Ainda pior, a ACLU observa que não encontrou nenhuma evidência de que essas agências de segurança pública fossem fazer anúncio público, debater , buscar apoio da comunidade ou dos legisladores sobre o uso dessa tecnologia invasiva. Nenhuma agência “criou uma política de uso que limitasse como essas ferramentas seriam usadas e ajudariam a proteção dos direitos e liberdades civis.”

Olhos nos céus

Paradas fora do Tribunal Regional da cidade de Baltimore no fim de junho, duas dúzias de pessoas seguravam cartazes exigindo justiça para Freddie Gray, um homem negro de 25, morto sob custódia policial em Abril de 2015. Dentro do tribunal, a promotoria argumentou que o policial Caesar Goodson dirigiu a van da polícia  imprudentemente pela cidade de propósito , jogando o corpo de Gray de um lado para o outro dentro da van. A corrida irresponsável quebrou o pescoço de Gray.

 

Fora do tribunal, um homem que estava entre os manifestantes pensou porque, com centenas de câmeras de rua por perto, a cidade e Baltimore não tinha um vídeo do incidente que levou à morte de Gray. não apenas haviam câmeras que poderiam ter gravado  mas a polícia da cidades estava testando, sem informar ao público, um sistema de vigilância aérea adaptado da escalada militar no Iraque. Uma investigação da Bloomberg revelou que os sistema de vigilância usam objetivas grande angular para capturar cerca de 48,28 Quilômetros quadrados a qualquer momento, enviando imagens em tempo real para analistas em terra.  As cenas então são armazenados  disponibilizadas para a avaliação, semanas depois se necessário. O juiz  absolveu o policial Goodson de todas as acusações no Caso de Gray.  Ainda que o sistema de vigilância aérea que a polícia de Baltimore está testando tenha pairado sobre aqueles que se manifestavam do lado de fora do tribunal.

 

Enquanto  as câmeras não capturaram o registro dos eventos que levaram à morte de Gray, o FBI lançou seu próprio vídeo confirmando  a vigilância do movimento Black Lives Matter. Os registros do FBI datam de 29 de Abril a 3 de Maio de 2015, e foram feitos de aeronaves tripuladas e de drones. Esses e outros relatos, como a vigilância pelo FBI dos primeiros protestos do Black Lives Matter  que  explodiram após a polícia disparar em Michael Brown, um jovem negro de 18 anos, em Ferguson, Missouri, contradizem as alegações de oficiais do FBI que dizem que o bureau não usa aviões espiões  para monitorar manifestações pacíficas.

 

De fato um investigação do North Star post em 2015 revelou que pelo menos 100 aeronaves são usadas pelas agências de segurança pública dos  EUA para espionar cidadãos. Essas aeronaves são equipadas com tecnologia avançada de produção e imagens e vídeo e alta resolução- especificamente, o StingRay , dispositivo secreto de rastreamento de telefone, e talvez infravermelho ou outra tecnologia de visão noturna. A Associated Press relatou que depois de um período de 30 dias rastreou pelo menos 50 aeronaves e associou ao FBI e identificou mais de uma centena de voos em 11 estados. Mas o FBI manteve sua operação secreta escondida do público nos EUA registrando as aeronaves em companhias de fachada.

 

Como o monstro mitológico grego, Argos Panoptes o FBI colocou seus olhos no céu de toda a nação para vigiar o público em massa e espionar manifestantes. Panopte s- Do grego “Παν” (tudo) e “οπτικος”(Vê)- era um ser que via tudo porque tinha cem olhos cobrindo seu corpo da cabeça aos pés. Esse monstro foi a inspiração para a penitenciária proposta pelo filósofo utilitarista Jeremy Bentham, o “panóptico”. Usando o modelo como uma metáfora,  o filósofo francês Michel Foucault argumentou que  ele ilustrava as relações de poder do dia-a-dia. As autoridades acreditam que se houver uma câmera espiã sobre a sua cabeça- via aeronave, drone, Circuito fechado de TV, qualquer dispositivo eletrônico ou as tecnologia de geolocalização em seus mapas e redes sociais-  você autocensura seu comportamento. Mesmo se eles não estiverem te espionando, a ameaça de alguém fazendo isso fará o papel de manter a ordem.

 

A economia do capitalismo de sobrevivencia

 

Em seu livro de 1964,  Ideologia da Sociedade Industrial, o filosofo Herbert Marcuse  argumentou que  em sociedades tecnicamente avançadas o totalitarismo pode ser imposto sem terror. Isso ocorre pela transformação da vida privada em um sistema supremo de dominação. Para Marcuse, a esfera de consumo de massa, por exemplo, foi além de satisfazer as necessidades básicas de prover mais conforto, luxo e abundância. Isso incentiva não apenas o disfarce das opressões do dia-a-dia a que as pessoas estão submetidas, mas elas também agem como um amortecedor que prende a possibilidade das pessoas imaginarem uma forma diferente, possivelmente melhor  de viver.

 

No mundo regido por informação e comunicação avançadas, o processo de transformar a vida privada em um sistema de dominação abrangente ocorre subliminarmente- mesmo que o produto final apareça  em todo lugar.

 

O Yahoo, por exemplo, quer patentear “ outdoors inteligentes” que serão colocados próximos à vias expressas, em aeroportos, em balsas, em bares e hoteis, sistemas públicos de transportes,  cruzamentos e outros espaços públicos e privados. Esses painéis digitais contarão com um conjunto amplo de tecnologias invasivas de vigilância como torres e transmissão e celulares, aplicativos de celular, gravações, mecanismos de orientação e veículos, satélites, drones, microfones, detectores de presença de “sensores biométricos” como  impressão digital, dispositivos de reconhecimento de retina e facial. Os outdoors inteligentes da Yahoo tentarão identificar indivíduos específicos, e aqueles que estiverem no mesmo lugar simultaneamente para determinar seus dados demográficos e status socioeconômico. Eles construíram perfis das pessoas em seu redor antes de mostrarem anúncios personalizados a eles. A Yahoo batizou esse processo de “Grouplization”. Outros rotularam essa exploração dos dados pessoais para ganho corporativo como “Capitalismo da Stasi”. Novas teorias sociais estão emergindo rapidamente nessa área.

 

O processo pelo qual a tecnologia responde a indivíduos e grupos para vigiar e modificar o comportamento humano de  formas expansíveis e lucrativas foi descrito por Shoshana Zuboff, professora emérita da Harvard Business School, como uma nova subespécie do capitalismo conhecida como “capitalismo de vigilância”. Zuboff escreve o capitalismo de vigilância como “uma nova lógica de acumulação” ela é “uma nova forma de mutação econômica do engate clandestino dos vastos poderes digitais com uma indiferença radical e o narcisismo intrínseco do capitalismo financeiro e sua visão neoliberal que dominou o comércio por pelo menos 3 décadas, especialmente nas economias anglo-saxãs”

 

A incrível evolução do poder de processamento dos computadores, os algoritmos complexos e os saltos na capacidade de armazenamento de dados se combinam para fazer o capitalismo de vigilância possivel.  Esse é o processo de acumulação por espoliação dos dados que as pessoas produzem. Ele ocorre de formas tanto profundas quanto  que parecem benignas.

 

Além da realidade virtual, rumo à libertação real

 

Sociedades tecnologicamente avançadas produzem realidades cada vez mais personalizadas.  Algoritmos sensíveis sugerem qual a próxima série do Netflix nós devemos fazer maratona. A Amazon Prime recomenda quais produtos nós gostaríamos q fossem entregues no dia seguinte. Jogos de realidade aumentada e de realidade virtual, que suplementam e provém possibilidades digitais revolucionárias, estão em ascensão. Essa corrida rumo a personalização combina os últimos desenvolvimentos da tecnologia para prover um senso de escolha e satisfação na vida em um mundo cheio de desigualdades esmagadoras e injustiça.

 

A aparência de abundância, a sensação de que todo o conhecimento e possibilidades virtuais estão disponíveis na rede, na ponta de seus dedos, na palma da sua mão, nos cerca onde nós formos, é um distração pixelizada da opressão estrutural embutida na totalidade a nossa vida diária. É uma distração intoxicante para aqueles que lutam para proteger suas comunidades, assim como os povos indígenas na ocupação de  Standing Rock  e o movimento Black Lives Matter. É uma distração o sexismo, desempoderamento, decadência ambiental, domínio de classe e racismo, enquanto de muitas maneiras também estimulam os mesmos problemas.

 

O que se faz  necessário hoje é  imaginação radical  para  ar um novo enfoque sobre como essa poderosa mudança tecnológica pode ser  redirecionada para alimentar e abrigar os pobres, prover saúde, educação e cultura para todos, para descentralizar sociedades e  atingir autogoverno, uma sociedade sem classes e autonomia democrática, o aumento do número  de usuários ativos de realidade virtual está previsto para 171 milhões em 2018. Para pessoas que imaginam mundos inteiramente novos, imaginar apenas um mundo novo- o nosso- em que existem casas inteligentes ecologicamente corretas, cidades inteligentes, escolas inteligentes e hospitais inteligentes para todos não deve ser difícil. A tecnologia existe. Conseguir “luxo comunal” para todos é mais possível que nunca.

Ainda que grandes empresas e instituições estatais tenham se apropriado e transformado as tecnologias de informação e comunicação nas mais poderosas ferramentas para controle social que o mundo já viu. Suas redes, plataformas e aparatos e vigilância permitiram uma perigosa fusão entre os poderes públicos e privados e estão claramente desenhadas para cimentar suas próprias posições e privilegio e dominação. É nossa responsabilidade , as pessoas e comunidades mais afetadas, lutar pela reapropriação, descentralização e recriação dessas tecnologias de forma a tornar possível meios novos e melhores e vida.

 

Facebook Comments

Kaique Pimentel

cozinheiro, propagandista, rabisca uns textos de vez em quando....