Violência e não-violência: uma questão tática

Por Cintia Melo

Eu vou começar este texto como eu começo a maior parte dos meus textos. Explicando o contexto de onde eu venho e tudo que eu passei até chegar nele. Eu parto da premissa que quem fala (e escreve) sempre fala (ou escreve) de algum lugar. Para entender meus argumentos, vocês devem também entender qual o lugar de onde eu escrevo.

 

Eu me considero hoje anarquista, mas, desde pelo menos os dezesseis anos, eu já me filio a ideais socialistas (ainda que de outras correntes). Como tal, a revolução é um norte perseguido constantemente. E para tanto, nós vamos precisar de rupturas.

 

Profissionalmente, minha primeira formação é em Direito e minha primeira experiência profissional  foi com a mediação de conflitos, que consiste, de forma muito geral, na busca não-estatal de resolução de conflitos. A fala e a escuta são nossas principais armas. Eu também sou abolicionista, eu não acredito no sistema penal, eu não acredito em prisões ou punições. Dito isso,  eu preciso acreditar em outra coisa capaz de reestabelecer a ordem quando crimes acontecem. A isso a gente chama de justiça restaurativa.

 

Pendendo de um lado ao outro, da sonhada revolução (que vai ser precedida, com certeza, de agitações, desobediência e uma série de outros frissons) às mesas de negociação e mediação eu me deparei o tempo todo com a questão: a violência é necessária, saudável ou destrutiva?

 

Continuei lendo sobre mediação e sobre justiça restaurativa. Continuei escutando as pessoas que experimentaram tais técnicas. Comecei a tentar me imaginar nessas situações. Procurei ler sobre comunicação-nã0-violenta e cheguei à conclusão, um pouco óbvia, eu sei, de que a violência é uma questão de tática.

 

Como diz um texto que eu li a algum tempo, alguns crimes terão que ser cometidos, não se faz um omelete sem quebrar alguns ovos, certo? A pergunta é: quais os ovos valem a pena serem quebrados para saciar nossa fome?

 

Aí está a resposta: as estruturas e as instituições. Contra estruturas e instituições não nos resta alternativas que não a violência. Não se negocia com o fascismo, com o racismo, com o capitalismo, com o machismo, com o capacitismo. Não se negocia com as instituições da Igreja, da família tradicional, da política institucional. Estruturas e instituições tem que ser esmagadas.

 

Mas, pessoas, não. Nos níveis individuais, precisamos desenvolver técnicas não-violentas de resolução de conflitos. Não é fácil, eu sei.

 

Vou usar como exemplo a violência de gênero para exercício de reflexão. Afinal, é um tema que me concerne, e do qual, a minha vivência me fez desenvolver profundo apreço pela mediação de conflitos.

 

Se quisermos destruir o patriarcado, como queremos, teremos que ser violentas. Profundamente violentas. Teremos que desafiar a ordem, com nossos corpos e pensamentos. Sim, teremos que colocar as tetas de fora em passeatas, horrorizando os conservadores religiosos. Algumas de nós iremos pixar muros, colar cartazes. Outras farão discursos inflamados, publicarão textos ácidos, desenharão charges provocativas. Outras quebrarão crucifixos para clamarem por menos rosários em nossos úteros. Outras beijarão outras mulheres, amamentarão em público, transarão com quem melhor lhes convier. Nos organizaremos em movimentos sociais, coletivos e outras formas de fazer política.

 

Em nosso nível individual, no entanto, seremos oprimidas e violentadas por homens que amamos, pais, irmãos, filhos, maridos, amigos. E por homens que não conhecemos. Poderemos escolher caminhos como perseguir a prisão destes homens, escrachá-los, destruir suas reputações. No entanto, isso não nos trará paz de espírito e não contribuirá de forma efetiva com a luta sistêmica e estrutural que estamos há décadas construindo. Em nível individual, precisaremos recorrer à mediação, à justiça restaurativa e à comunicação-não-violenta para transformarmos algozes em aliados.

 

Há alguns anos atrás eu fui vítima de violência doméstica. Talvez tenha sido até hoje a luta mais difícil de ser lutada. Me deixou sequelas profundas. Eu amava este homem, eu compartilhava meus segredos e aspirações mais íntimos com ele. Eu estava desolada e procurei a polícia. Um processo judicial, medidas protetivas e advogados não eram capazes de curar a minha dor. Como estávamos inseridos num contexto comunitário em comum, eu, ainda que imatura em relação aos poderes da não-violência, pedi por um processo restaurativo baseado na mediação de conflitos, guiada por profissional competente. Essa estrutura política que estávamos inseridos negou meu pedido (bem como, sucessivamente, me tratou de forma violenta, se valendo de expedientes de slut-shaming como forma de me calar politicamente).

 

A dor não curou. Eu não venci, não importa as fissuras que tenham causado. Ele se machucou profundamente no processo. Nós dois saímos mais quebrados do que entramos na situação. Anos depois, por conta própria, sem metodologia pré-estabelecida, foi possível comunicar de forma nã0-violenta e dizermos um ao outro como observamos tudo o que vivemos, para em seguida entender como tais situações nos fizeram sentir, quais as necessidades que tínhamos diante disso, e o que queríamos pedir um ao outro. Nós fizemos isto intuitivamente, e aos poucos a ferida aberta estancou o sangue, que começou a coagular e aos poucos foi cicatrizando. E pudemos seguir em frente, mesmo com os traumas.

 

A violência, portanto, não deveria ser direcionada a este homem em específico. Sim, um homem que desfrutou durante toda sua vida dos privilégios de ser homem. E que justamente por isso, se encontrava limitado a perceber formas não-violentas de se comportar dentro da tumultuada relação de gênero que estabelecemos. A linguagem do patriarcado foi a linguagem que ele aprendeu, ainda que isto não o isente de responsabilidade alguma, mas, restaurar este homem, não era uma questão de violência, mas, taticamente, de não-violência. A não-violência é o que permitiu que nossos medos, anseios e desejos se reencontrassem e se organizarem numa nova estrutura.

 

Vamos a um outro exemplo, mais fresco. Recentemente lidei com duas outras injustiças estruturais relativas à psicofobia. De um lado, estava uma estrutura capaz de exercer poder, inclusive econômico sobre mim. De outro, que também me direcionou violento, estava uma pessoa, uma relação no nível individual. Ambas as atitudes foram atitudes de violência e preconceito. O que as diferenciava eram os autores destas estruturas.

 

Tomada pela emoção, no entanto, eu não fui capaz de distinguir estas situações. Eu me senti acuada diante daqueles que tinham poder sobre mim.

 

Quando eu falo em comunicação-não-violenta não estou dizendo que você não pode elevar a voz, ou que você não deve falar palavrão. Nada disso, nenhuma dessas bobagens pacifistas. Pacifismo é só mais uma arma pra nos manterem quietos e perpetuarmos o status quo. Sentir raiva e ódio é normal e saudável. Quando eu falo de comunicação-não-violenta eu estou falando de se valer destas quatro fases: 1) observação, 2) sentimentos, 3) necessidades, 4) pedido. Se você mandar tomar no cu, por mim está tudo bem.

 

Em vias de concluir, o que eu estou dizendo é: é preciso ser tático em todas as batalhas que vamos travar. Ao escolher pela violência ou pela não-violência devemos ter uma análise fria. Estamos atacando estruturas ou indivíduos? Quais as armas que eu tenho disponível para vencer esta batalha? Onde eu quero chegar em curto, médio e longo prazo? Quanto backlash eu consigo suportar?

 

Tendo em mãos as respostas para estas perguntas, podemos escolher qual o caminho tomar. Qual o tipo de fissura e ruptura pretendemos alcançar. Não se vence uma guerra ao acaso.

 

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C. Melo

Eu queria ser M.S.