Vinde, vice, vixe!

Marcos Pontes não conseguia esconder o sorriso no rosto. Ao pisar no carpete macio da sala de reuniões, seu primeiro impulso era tentar se jogar e deslizar pelo chão. O astronauta bauruense finalmente iria se encontrar com o mito. Na Força Aérea, havia muito ouvido falar dele. O intrépido. Em como ninguém o vencia nas flexões de pescoço no quartel. Irmão de farda, militar reformado.

Já para o Peruca, como o Jairzinho é conhecido entre os mais íntimos, o encontro não seria muito agradável. Pontes tinha fama de abobalhado, cara de vítima.

– Escuta aqui seu afeminado. Pode tirando esse sorrisinho do rosto. O negócio é o seguinte. Isso pode não acontecer. Você sabe, ser meu vice. Eu sou cristão, e não gosto desse papo de astrologia. Coisa de viado comunista.

– É astronomia, senhor. Mas não sou astrônomo. Sou astronauta.

Bolsonaro bateu na mesa, lavando o rosto de Pontes com sua baba. Todos sabem que ser descordial era sua assinatura pessoal.

– Pouco me importa. O que preciso saber é que você é um paspalho e tem a cabeça no mundo da lua. Pois é. Sei que vocês acreditam que a terra é redonda. Pois digo que não é. É plana. O que eu posso dizer é o seguinte. Pra mim, não rola. Se o partido forçar a barra, eu não me candidato. Você é um escroto, mas conto com teu voto.

Quando o herdeiro do trono dos Bragança, Luiz Phillipe, foi recebido, a conversa foi muito diferente.
O príncipe estava sim, sorrindo. Mas não era por estar animado.
Bolsonaro havia deixado a peruca cair da cabeça em um descuido, enquanto fazia uma reverência à figura monárquica.
Antes mesmo de Bolsonaro se levantar e se recuperar, o varão d’Orleans bradou:

– Eu vou cortar o papo furado. Eu vim aqui só pra falar uma coisa. Eu poderia mandar recado, mas Nietzsche dizia que é sinal de fraqueza mandar que outros façam o que devemos fazer. E eu não sou fraco.

Bolsonaro não conseguiu nem esboçar uma reação e já foi interrompido novamente.

– Eu não gosto de milico. Minha família sempre teve uma péssima relação com milico. Foi a turma da farda que derrubou meu antepassado, Dom Pedro II. Ele era um fraco, um desses comunistas desgraçados. Eu não gosto de comunista e milico pra mim é comunista. E você meu caro, ultrapassa esse limite. É um comunista nato, um dos mais degenerados. Adora um faniquito.

Bolsonaro levantou o dedo para a fala, mas foi novamente interrompido:
– Eu não vou me rebaixar a um tipo subalterno a mim. Eu sou um príncipe. Isso significa que também não vou me candidatar em uma república. República para mim é comunismo. E eu sou monarquista. O último monarca de verdade, com sangue puro. O resto das dinastias é formada por um bando de comunistas degenerados que mistura seu sangue ao de plebeus, uma blasfêmia. Eu vou é governar esse país sozinho. E como regente, não como presidente. Passar bem.

Alexandre Frota já chegou quebrando uma cadeira na mesa. Masculinidade tóxica, do jeito que Bolsonaro gosta.
Enquanto um assessor de Bolsonaro acendia o charuto vagabundo do ator pornô infestando a sala com cheiro de tabaco, duas doses de Whisky se materializaram na mesa.

– PORRA BRÓDER, TU TÁ DE PAUMOLECÊNCIA COMIGO? JACK DANIELS, CUMPADI? ME DESCE UM RASGUERA DE VERDADE. EU CURTO É PASSAPORT. SEM ÁGUA E NEM GELO.

Enquanto se lambuzava com a bebida como um cavalo bebendo água, Frota mandou o recado.

– PORRA BRÓDER, EU SEI QUE TU É MACHO QUE NEM EU, FALÔ. O LANCE PARRCERO, VAI SER O SEGUINTE. GOSTEI MUITO DO QUE VOCÊ FALOU SOBRE COMER GENTE, BRÓDER. EU TÔ NESSA POR ISSO. QUERO COMER VÁRIAS GATAS. E GATOS TAMBÉM. NÃO VOU FICAR DE PAUMOLECÊNCIA NÃO.  NÓS VAMOS BOTAR PRA FODER ESSE BRASIL TODO, ENTENDEU?

– QUEM VAI FAZER O JINGLE VAI SER O STRONDA, SACOU. TÁ AQUI NA MINHA MENTE JÁ.

Havia sido uma tarde cansativa e o deputado estava muito cansado para contrariar. Aperto de mãos. Negócio fechado. Um novo Brasil se construiria dali.

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